Paulo de Tarso Lara Pires, engenheiro florestal, advogado, é mestre em Economia e Política Florestal pela UFPR e doutor em Ciências Florestais (UFPR). Pós-doutorado em Direito Ambiental e Desastres Naturais na Universidade de Berkeley – Califórnia.
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terça-feira, 9 de abril de 2013

Paraná inclui planos municipais de Mata Atlântica em suas políticas públicas

O Paraná será o primeiro estado do país a incluir a elaboração dos Planos Municipais da Mata Atlântica em sua política pública. A iniciativa, inédita no Brasil, será uma parceria entre a Secretaria Estadual do Meio Ambiente, a Fundação SOS Mata Atlântica e a Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente (Anama).

O Paraná será o primeiro estado do país a incluir a elaboração dos
 Planos Municipais da Mata Atlântica em sua política pública.
 Na foto, Serra do Mar.Foto: Arnaldo Alves/ANPr

O secretário estadual do Meio Ambiente e Recursos Hídricos, Luiz Eduardo Cheida, esteve na noite desta segunda-feira (08) com o diretor de políticas públicas da Fundação SOS Mata Atlântica, Mario Mantovani, para formalizar a parceria.

A Fundação SOS Mata Atlântica - juntamente com a Secretaria do Meio Ambiente - irá capacitar os técnicos e profissionais de todas as cidades do Paraná para que os municípios possam elaborar e implementar seus planos, assumindo a competência da gestão ambiental local.

De acordo com Mario Mantovani, a inclusão dos Planos Municipais da Mata Atlântica na política estadual do meio ambiente do Paraná representa um momento ímpar e demonstra uma visão diferenciada do Governo em relação à questão ambiental. 

“A Associação Nacional de Órgãos Municipais de Meio Ambiente foi criada no Paraná pelo então governador José Richa, ainda antes da Constituição. Esta atitude representou uma virada na história do meio ambiente no Brasil, com a inclusão dos governos estaduais e a criação de uma articulação nacional, modelo para o mundo”, relatou Mario. “Então era natural esta aproximação da SOS Mata Atlântica com o Paraná”, completou Mario.

O QUE É - No Paraná, todos os 399 municípios estão inseridos na área do bioma Mata Atlântica. A Lei da Mata Atlântica (11.428/2006) possibilita aos municípios inseridos no bioma atuarem proativamente para sua proteção e recuperação. Os Planos Municipais da Mata Atlântica deverão apontar ações prioritárias para conservação de áreas de mata atlântica, com base em um mapeamento dos remanescentes do município. 

“O plano também contribuirá para o inventário florestal do Paraná, que começa a ser desenvolvido para gerar informações detalhadas sobre as florestas paranaenses”, informou o secretário do Meio Ambiente, Luiz Eduardo Cheida.

Além disso, os planos de Mata Atlântica, segundo Cheida, poderão fornecer informações para elaboração dos planos diretores municipais, planos municipais de bacias hidrográficas, de saneamento e de resíduos sólidos, contribuindo com o Programa Paraná Sem Lixões.

Outro benefício para os municípios, segundo Cheida, está relacionado à Lei Complementar 140, que prevê a descentralização de atividades, que hoje competem aos órgãos ambientais estaduais, para os municípios. 

“A metodologia de trabalho da SOS Mata Atlântica é simples e valoriza os técnicos locais na elaboração dos Planos Municipais da Mata Atlântica, que também deverão ser aprovados pelos Conselhos Municipais do Meio Ambiente”, conta Cheida.

Segundo o secretário, após a conclusão dos planos, a próxima etapa será garantir que as medidas compensatórias possam ir direto para os municípios. “É um instrumento que estaremos colocando nas mãos da sociedade, tornando o processo eficaz e constitucional”, finaliza Cheida.

Cenário – Mario Mantovani, da Fundação SOS Mata Atlântica, acredita que esta é a possibilidade para o Paraná reverter um quadro histórico de degradação de um dos biomas mais ameaçados do país. Ele lembra que, por duas vezes consecutivas, o Paraná apareceu com os maiores índices de desmatamento do país.

“Vamos dar subsídio, orientação e acompanhamento para que o Paraná possa mudar o histórico de Estado que um dia desmatou para o de Estado que recuperou a Mata Atlântica. Esta iniciativa tornará o Paraná referência para os 17 estados que possuem Mata Atlântica, bioma mais ameaçado do planeta”, resumiu Mantovani.

Ele informou que, até o momento, todas as iniciativas de Planos da Mata Atlântica são dos municípios. “A partir de agora, os Planos Municipais passam a ser uma política pública do Estado, onde toda a sociedade ganhará. Isso é inédito”, comemorou Mantovani.

Benefícios - O coordenador de Biodiversidade e Florestas da Secretaria do Meio Ambiente, Paulo de Tarso Lara Pires, disse que os planos de Mata Atlântica também irão auxiliar no Cadastro Ambiental Rural (CAR).

“É importante que este levantamento seja realizado de forma executiva pelos municípios, que são a célula principal no Sistema Nacional do Meio Ambiente. Já o Estado, deve ser o gestor e o tutor das políticas ambientais e, a União, o grande fiscal destas ações”, informou Paulo de Tarso.

O Cadastro Ambiental Rural é a “carteira de identidade” do imóvel rural e o pré-requisito, de acordo com o novo Código Florestal para obtenção de licenciamentos e autorizações ambientais para quaisquer atividades econômicas, agropecuárias ou florestais.

Fonte: AEN

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Brasil cria modelo climático inédito no mundo


Com apoio do governo, cientistas brasileiros criam primeiro sistema nacional de simulação do clima global. A iniciativa vai aumentar o número de informações a respeito dos fenômenos climáticos do Brasil e do continente sul-americano, que serão usadas no próximo relatório do IPCC sobre o tema


O Brasil anunciou nesta terça-feira (19.02) uma contribuição inédita para os debates internacionais a respeito do futuro climático do planeta: trata-se do Modelo Brasileiro do Sistema Terrestre (BESM), o primeiro sistema nacional de simulação do clima global, que está sendo produzido desde 2008 por cientistas locais e que foi apresentando oficialmente ontem, durante evento em São Paulo. 

A iniciativa promete trazer informações mais detalhadas a respeito dos fenômenos climáticos tropicais que acontecem em todo o continente sul-americano e, sobretudo, no Brasil e que ainda são pouco conhecidos na comunidade internacional. Entre eles, a variação de temperatura das águas do Atlântico Sul e o desmatamento da Amazônia, do Cerrado e de outros biomas brasileiros, que podem trazer consequências climáticas continentais e até globais. 

Por seu ineditismo, as informações produzidas pelo modelo climático brasileiro devem ser incorporadas ao AR5 - quinta edição do relatório do IPCC a respeito das mudanças climáticas, que está previsto para ser lançado no segundo semestre de 2013 -, dando ao Brasil o título de primeiro país da América Latina e segundo do Hemisfério Sul - atrás, apenas, da Austrália - a contribuir para os modelos de mudanças climáticas globais produzidos pela ONU. 

Além de colaborar internacionalmente, o BESM trará benefícios locais, como: 
- o aprimoramento da capacidade de previsão do tempo e da ocorrência de eventos climáticos extremos no Brasil e 
- a formação de uma nova geração de pesquisadores climáticos no país, que será mais capacitado para a produção de ciência de qualidade nessa área. 

O modelo climático brasileiro foi desenvolvido pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e pelo Programa Fapesp de Pesquisa em Mudanças Climáticas Globais (PFPMCG) no supercomputador Tupã, uma máquina de R$ 50 milhões usada para rodar toda a matemática por trás das previsões. O equipamento foi pago pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCTI) e pela Fapesp. 

Os primeiros resultados obtidos por meio do BESM foram apresentados ontem durante o evento em São Paulo. Entre eles, está a constatação de que o desmatamento da Amazônia aumenta a ocorrência do fenômeno El Niño.

Fonte: Planeta Sustentável

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Árvores amazônicas já sobreviveram a extremos climáticos, afirma estudo


Na semana passada, a NASA alertou que já era possível ver a degradação da Floresta Amazônica causada pelo aumento da frequência das secas, o que, por sua vez, seria uma das consequências do aquecimento global. 

Porém, agora um novo estudo afirma que as espécies que formam a floresta são muito mais antigas do que se pensava e, por isso, já teriam atravessado e sobrevivido períodos climáticos extremos. 

Publicado no periódico  Ecology and Evolution, o trabalho aponta que há registros fósseis de árvores ainda existentes que chegam a 15 milhões de anos, sendo que a maioria das espécies da Amazônia estaria na faixa dos 2,6 milhões a 5,6 milhões de anos. Isso é acima da idade estimada anteriormente, que afirmava que as espécies não superavam os dois milhões de anos. 

Segundo o estudo, durante a época chamada de Plioceno, a última fase do período Neogeno, por volta de três milhões de anos atrás, as temperaturas na região amazônica eram similares às que o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) projeta para 2100. E que mesmo assim, a floresta sobreviveu.

“Nosso estudo proporciona uma perspectiva histórica da tolerância das árvores ao calor e demostra que muitas espécies da Amazônia moderna são o suficientemente antigas para haver sobrevivido a muitas transformações climáticas importantes”, explicou Christopher Dick, biólogo evolucionista da Universidade de Michigan e líder do estudo.

Uma das conclusões do trabalho é que, ao contrário do que afirmam muitas simulações atuais, a floresta sobreviveria ao aquecimento global. 

Mas o texto deixa claro que o conjunto de perigos para a floresta, como o aumento das atividades humanas diretas, resultando em desmatamento e fragmentação, é uma ameaça real e importante para a Amazônia e deve ser evitado. 

“As políticas de conservação devem ter como grande objetivo minimizar os impactos do homem na floresta”, concluiu Dick. 

Fonte: Instituto Carbono Brasil


quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Após um ano de pesquisas, Paraná poderá ter política para prevenção de desastres naturais

O professor Paulo de Tarso Lara Pires em Berkeley 
A Assembleia Legislativa do Paraná receberá nos próximos dias uma proposta de Projeto de Lei para a criação da política para prevenção de desastres naturais para o Paraná.

O documento é resultado de uma pesquisa de pós doutorado em Desastres Naturais, desenvolvida durante um ano na Universidade de Berkeley, da Califórnia (EUA), pelo professor-doutor e coordenador do curso de MBA Internacional em Gestão Ambiental da UFPR, Paulo de Tarso Lara Pires.

Durante o período em que esteve em Berkeley, Paulo estudou estratégias de prevenção adotadas pelo governo americano e tecnologias de reparação de locais que sofrem acidentes naturais.

O professor - que retornou ao Brasil no mês de setembro - participou de um intercâmbio entre a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a universidade americana, com objetivo de desenvolver uma ferramenta eficaz para evitar e prevenir desastres naturais ocasionados por chuvas, ventos e efeitos de mudanças do clima. 

A troca de experiência também possibilitará a organização de uma rede entre Brasil e países latino-americanos para estudar casos jurídicos diante de desastres naturais. O intercâmbio - que continua mesmo após o retorno do professor Paulo de Tarso ao Brasil - envolve ainda a troca de informações referentes à questão normativa e à avaliação de prejuízos.

“Além disso, vamos analisar normas que, apesar de não se referirem diretamente aos desastres naturais, terão influência direta sobre os eventos, como o novo Código Florestal”, explica Paulo que é engenheiro florestal e advogado, mestre em economia política florestal e doutor em ciências florestais pela UFPR.

De acordo com Paulo apesar de o Paraná ter uma boa articulação para atender às catástrofes, são necessárias leis e políticas que monitorem as áreas de risco e trabalhem com as populações que vivem em encostas, margens de rios e outros locais historicamente frágeis do ponto de vista de desastres naturais.

FURACÃO SANDY – Em um momento em que o mundo acompanha notícias sobre o furacão Sandy - tempestade que causou a morte de 69 pessoas no Caribe, sendo 52 pessoas no Haiti, 11 em Cuba, duas nas Bahamas, duas pessoas perderam a vida na República Dominicana, uma na Jamaica e uma em Porto Rico –  os EUA conseguiram minimizar os impactos do evento natural. 

“Nos EUA as pessoas estavam sendo alertadas com antecedência pelo poder público sobre os riscos da tempestade, minimizando os impactos do desastre natural que, apesar de todos os esforços, ocasionou 46 mortes nos EUA e um prejuízo estimado de U$20 bilhões”, ressalta o pesquisador.

Ele destaca o esforço conjunto dos estados, municípios e prefeituras americanas para reduzir os impactos de ventos de até 130 km/hora em Nova Iorque, por exemplo.

“Medidas fundamentais como o isolamento de áreas de risco e o desligamento da energia elétrica para mais de 8 milhões de pessoas são resultados de uma política de prevenção de acidentes naturais que vem sendo fortemente trabalhada pelos EUA nos últimos anos, notadamente após o Furacão Katrina, em 2005, que devastou cidades e provocou mais de mil mortes, mostrando a fragilidade do sistema”, lembra o professor.
Para Paulo de Tarso a prevenção de eventos naturais extremos deve passar a fazer parte da agenda dos bons governantes que estão cientes de que as mudanças climáticas devem cobrar um alto preço da humanidade nas próximas décadas.  


segunda-feira, 22 de outubro de 2012

COP11: países ricos se comprometem a dobrar doações para preservação de biodiversidade

Os países ricos se comprometeram a dobrar as doações para o Plano Estratégico de Biodiversidade. Na opinião do secretário executivo do Ministério do Meio Ambiente (MMA), Francisco Gaetani, esse será o grande legado da 11ª Conferência das Partes da Convenção sobre Diversidade Biológica (COP11), que terminou sexta-feira (19.10) na cidade de Hyderabad, Índia.

Com o compromisso serão disponibilizados mais 3 bilhões de euros para apoiar o cumprimento das Metas de Aichi, que pretendem, até 2020, promover a proteção dos ecossistemas mundiais. “O importante é que os países ricos vão dobrar doações em relação à média entre 2006 e 2010. Isso significa que teremos mais 3 bilhões de euros adicionais para apoiar as Metas de Aichi”, disse o secretário com exclusividade à Agência Brasil, momentos antes de deixar Hyderabad.

“As negociação que fizemos foram muito bem sucedidas, graças à atuação do nosso ministério [MMA] e do Itamaraty. O guarda-chuvas do Ibsa [grupo formado por Brasil, da Índia e da África do Sul, destinado a alinhar o posicionamento dos três países durante as negociações] funcionou”, disse o secretário.

A conquista foi mais significativa pelo fato de os países ricos terem alegado que a crise mundial impossibilitaria compromissos mais significativos da parte deles. Como os Estados Unidos não são signatários do Protocolo de Nagoia, assinados em 2010 na COP10, eles não estão entre os países que assumiram o compromisso.

Participaram da COP11 negociadores de mais de 192 países. Os recursos captados serão utilizados pelos países mais pobres para implantar o Plano Estratégico de Biodiversidade, orientados pelas Metas de Aichi a partir de cinco objetivos estratégicos: como envolver governo e sociedade na identificação e no combate às causas fundamentais de perda de biodiversidade; reduzir as pressões sobre a biodiversidade; promover a sustentabilidade; proteger os ecossistemas, espécies e diversidade genética e usar os benefícios de biodiversidade e serviços ecossistêmicos.

Fonte: Agência Brasil

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Izabella Teixeira anuncia liberação de créditos para combater mudanças climáticas


O Fundo Clima está em vigor. O anúncio foi feito na última segunda-feira (13) pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). A proposta tem como objetivo incentivar o desenvolvimento sustentável no Brasil.

O programa foi lançado em 2011, mas somente agora tem as linhas de crédito liberadas, conforme informado pela ministra Izabella Teixeira e pelo presidente do BNDES Luciano Coutinho. Inicialmente estarão disponíveis R$200 milhões, mas é possível que o montante alcance R$560 milhões até o final deste ano.

A verba estará disponível para financiar projetos que reduzam a quantidade de gases de efeito estufa liberados pelo setor de transportes, energia e que trabalhem com o intuito de melhorar a mobilidade urbana em grandes cidades brasileiras. Além disso, pesquisas direcionadas a essas áreas também terão espaço no financiamento.

Outros setores que estão inclusos no projeto são máquinas e equipamentos eficientes, ações de combate à desertificação e estruturas que transformem resíduos em energia.

O petróleo é o maior fornecedor de recursos usados no programa, responsável por prover 60% do capital através da Participação Especial do Petróleo, recebido pelo Ministério. Apesar de contar com o apoio direto do BNDES, nem todo o montante será disponibilizado em forma de empréstimo. O MMA será responsável pela gestão de uma parte que será investida sem reembolso.

Para Mauro Pires, secretário de mudança climáticas do MMA, “alinha de crédito do Fundo Clima é um instrumento importantíssimo para que o Brasil consiga alcançar compromissos nacionais voluntários de redução de emissões de gases de efeito estufa”. Segundo ele, a medida deve incentivar empreendimentos eficientes, que reduzam as emissões de gases de efeito estufa e auxiliem no combate às mudanças climáticas.

Os projetos poderão contar com até 90% do valor financiado pelo BNDES, com taxas de juros de 2,5% ao ano e prazo de até 25 anos. Com informações do Globo Natureza.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

ONU divulga 'boas maneiras' a empresas na adaptação ao clima


Iniciativa tenta evitar prejuízos financeiros e elevar prevenção a catástrofes.
Criação de sementes mais resistentes à chuva e à seca é exemplo no Brasil.

Para propagar iniciativas de empresas voltadas à adaptação da mudança climática, que já apresenta efeitos no planeta, um relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) tenta mostrar como é possível produzir mesmo sob efeitos inevitáveis das alterações do clima.
Organizado pela Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC, na sigla em inglês), a base de dados compartilha cem “cases” do setor privado realizados em diferentes países, inclusive no Brasil, que ajudam a evitar prejuízos financeiros durante catástrofes naturais e a prevenir consequências graves de desastres.
Ainda que seja um tema difundido globalmente, a mudança climática é considerada por muitos como distante e de responsabilidade apenas de governos. Porém, é somente quando “mexe no bolso” das companhias é que se inicia um movimento para evitar um novo prejuízo.
“Se falasse a um diretor de empresa da projeção de que a temperatura do planeta vai aumentar, isso não vai significar muita coisa. Agora, se mostrar a mesma projeção exemplificando uma redução de chuvas na região onde está sua empresa [afetando a produtividade], demonstro o impacto da mudança climática”, afirma o brasileiro Emerson Resende, coordenador do programa Iniciativa do setor privado em adaptação da UNFCCC.
Ele foi responsável por coletar informações das empresas e divulgá-las no relatório que contém ações implementadas por organizações empresariais, entre elas a Nestlé, Coca-Cola, Levi’s, Microsoft e Basf na adaptação dos riscos climáticos.
Adaptação
A Levi’s, fabricante de roupas dos Estados Unidos, criou uma forma de reduzir o consumo de água na produção de calças jeans, evitando assim o desperdício.
Outro exemplo vem da fabricante suíça Nestlé, cuja produção de grãos como o cacau e o café pode ser afetada devido à seca em determinados países. A empresa, investe em metodologias de plantio sustentáveis nessas regiões, que aumentam a fertilidade do solo e evitam o estresse hídrico e agrícola. “É uma forma de exemplificar a prevenção, uma maneira das empresas se adaptarem e adotarem estas medidas”, disse.
No Brasil
O relatório aborda também iniciativas de adaptação aos efeitos da mudança climática realizadas no Brasil pelas empresas Allianz Seguros, Basf, HSBC e Riverside.
A companhia química Basf, por exemplo, tem projetos citados como a criação de uma tecnologia de proteção costeira (que evita erosões e deslizamentos) e o desenvolvimento de plantas mais resistentes a chuvas e à estiagem.
“O país está muito avançado nesta área. Desenvolve iniciativas na parte ambiental há muitos anos – como o etanol. Mas a parte de adaptação precisa ser melhor desenvolvida rapidamente", disse Resende.
Em comunicado divulgado pela UNFCCC, a secretária-executiva do órgão, Christiana Figueres, afirma que o projeto tem a intenção de ajudar comunidades e empresas a se tornarem mais resistentes ao clima. “Riscos climáticos que afetam as comunidades ao redor do mundo são também um risco aos negócios”, disse.
A próxima etapa deste trabalho, de acordo com Resende, será propagar tais informações com a ajuda de centros regionais e associações de negócios. "Queremos aumentar a consciência da adaptação, mas também mostrar que aí existe oportunidade de negócios", afirma.

Fonte: G1 Natureza


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Série Plantadores de Florestas - Cap. V - O restaurador de áreas degradadas

Renato Moraes de Jesus já coordenou o plantio de 92 milhões de mudas e quer chegar à marca dos 100 milhões com o reflorestamento de 100 mil hectares de Mata Atlântica


Renato de Jesus: “antes de plantar precisamos controlar as espécies invasoras e a erosão”


Minas exploradas, encostas de solo nu, zonas industriais, frentes de erosão, áreas de mata ciliar, velhas pastagens improdutivas: onde a maioria de nós enxerga apenas uma paisagem degradada, Renato Moraes de Jesus visualiza possibilidades. E implanta mudanças radicais, com paciência, persistência, juntamente com equipes capacitadas e tecnologias adaptadas caso a caso.

“Plantar é fácil. O negócio é cuidar: as mudas de árvores nativas têm mais necessidades do que um recém-nascido! Na verdade, são até mais difíceis, pois o recém-nascido chora quando precisa de alguma coisa e a floresta recém-plantada, não”, resume o engenheiro florestal formado pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) com doutorado em Ecologia Florestal pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

As próprias árvores fazem seu arrimo de raízes, no reflorestamento do Convento da Penha, em Vitória (ES)

Os frutos das palmeiras atraem animais que “semeiam” novas árvores e adensam o plantio


Aos 60 anos, Renato fala com propriedade, do alto de um currículo de 33 anos de restaurações ecossistêmicas nas áreas de mineração da Vale e em projetos feitos por meio de parcerias ou convênios com a mineradora, incluindo a recuperação do entorno de portos, zonas industriais e margens de ferrovias e rodovias. E à longa experiência na Vale ainda é preciso acrescentar os últimos dois anos como diretor técnico operacional da Symbiosis Investimentos e Participações Ltda. Isso, sem contar os experimentos realizados nas horas vagas, no próprio sítio, em Domingos Martins, Espírito Santo.

Por alto, Renato de Jesus já coordenou o plantio de 92 milhões de mudas de árvores nativas! E ainda quer chegar aos 100 milhões antes de se aposentar. Ele deve alcançar a impressionante marca ao terminar o projeto que agora está em cima de sua mesa, de recomposição de 100 mil hectares de Mata Atlântica no Sul da Bahia, com espécies de potencial silvicultural (floresta de produção). Depois, pretende ficar só com o sítio onde mora, a 50 quilômetros de Vitória. O plano é tocar uma pousada por lá, dividindo a atenção apenas entre os convidados, a contemplação de palmeiras vermelhas – suas favoritas, plantadas em frente à janela do escritório – e um mergulhinho ao pé da cachoeira.

A inspiração para uma vida dedicada ao plantio de matas veio dos tempos de garoto. Renato era vidrado em seriados e filmes sobre a polícia montada do Canadá. Queria ser como aqueles homens de chapéu e botas altas, vivendo numa casinha de madeira e tomando conta da floresta. A casinha de madeira ele arrumou na Reserva Natural Vale, em Linhares, um raro remanescente de Mata Atlântica de baixada (ou de tabuleiro) com 21.787 hectares. Ali podem ser encontradas 4 mil espécies botânicas, uma centena de espécies de mamíferos e cerca de 380 espécies de aves, incluindo o ameaçadíssimo mutum-do-sudeste, o qual tive o prazer de avistar diversas vezes, antes do amanhecer, durante uma reportagem.

Ao assumir a gestão de Linhares, no mesmo ano em que foi contratado pela Vale (1977), Renato foi morar na reserva. Logo montou um viveiro de árvores nativas, hoje com capacidade de produzir até 3 milhões de mudas de 600 espécies, por ano. Inicialmente, as mudas foram usadas para recomposição e enriquecimento da floresta da própria reserva. Depois, para experimentos práticos de manejo florestal e para os plantios em áreas administradas pela Vale, como o entorno do Porto de Tubarão, em Vitória. E também para a restauração de outros projetos apoiados ou executados pela mineradora, como a restauração da floresta no morro do Convento da Penha, uma das principais atrações turísticas da capital capixaba.

“O plantio na Penha tem 22 anos. Antes de plantar precisamos controlar as espécies invasoras e preparar a recomposição da floresta nativa. São 50 hectares de pirambeiras e, em diversos pontos, precisamos construir muros de arrimo, para evitar deslizamentos. Muita coisa também havia sido plantada sem critério, ornamentais de outras regiões, espécies exóticas. Havia muitas plantas invasoras e as árvores nativas que ainda resistiam estavam cobertas por cipós”, conta o engenheiro florestal. “Ainda hoje vemos intervenções inadequadas, mas as árvores que plantamos cresceram e a mata fechou. Foram 200 espécies diferentes, todas da região”.


Após quatro décadas plantando, o plano de Renato de Jesus é descansar à sombra das matas recuperadas


Boa parte do conhecimento acumulado por Renato sobre a recomposição de florestas tropicais veio da necessidade de replantar a vegetação original em áreas mineradas, após o período de exploração. “O Brasil já fez muito mais do que outros países, em restauração florestal. Mesmo empresas multinacionais já fizeram mais aqui do que em suas áreas de mineração lá de fora. Mas ainda é muito menos do que deveria ser feito”, observa o especialista.

A tal recomposição da vegetação original é obrigatória no Brasil, como em muitos países. Mas quanto efetivamente cresce do total de árvores plantadas é algo fora do alcance de qualquer lei ou decreto. Esse tipo de plantio é complicado porque antes é preciso conter a erosão e refazer o solo, de forma a garantir ar, água e os nutrientes necessários às raízes das plantas.

Em seguida vem uma fase crítica, de crescimento das mudas. Isso implica em assegurar que tenham água suficiente na estação seca; não sejam levadas por enxurradas na estação chuvosa; nem expostas demais ao sol; nem sombreadas demais; nem afogadas por capins invasores ou destruídas em incêndios. Sem contar a necessidade de multiplicar todos esses cuidados por grandes extensões, não raro, em locais de difícil acesso ou com encostas íngremes.

O grande mérito de Renato de Jesus nessa batalha contínua é se nortear por experimentos práticos. Ele sabe o que dá certo em cada região por que testou, não por ouvir falar. E não tem receio de lançar mão das mais variadas tecnologias para facilitar o plantio e aumentar o porcentual de sucesso das futuras árvores, sejam simples ou sofisticadas e mesmo diminuir o custo de implantação. O mero fato de combinar uma plantadeira manual capaz de cavar e já colocar a muda no buraco junto com um gel nutritivo, por exemplo, significa acelerar o plantio em encostas – onde as máquinas não chegam – e multiplicar várias vezes a sobrevivência das matas plantadas.

Parte de seus conhecimentos, Renato de Jesus publicou em artigos e livros, como Recuperação de Áreas Degradadas – Práticas da Vale, escrito em parceria com Samir Gonçalves Rolim e publicado em 2010. Outra parte reuniu em florestas-modelo para fazer demonstrações a produtores rurais, estimulando o reflorestamento em propriedades privadas. Chamado de Florestas-Piloto, este projeto teve início em 2008, e é realizado no âmbito de um convênio da Vale com o Governo do Espírito Santo. Para os produtores que se convencem das vantagens de recuperar suas florestas e querem ir adiante, Renato projetou o programa Extensão Ambiental, no qual a Vale dá assistência técnica para o plantio e ainda fornece as mudas e os insumos. Mesmo com sua saída da Diretoria de Biodiversidade da mineradora, a empresa dá continuidade aos dois programas.

Renato Moraes de Jesus agora prepara o sítio de Domingos Martins (ES) para receber turistas

Sem risco de exagerar, pode-se dizer que o legado de Renato de Jesus à Vale é o conjunto das melhores técnicas de recuperação de áreas mineradas com vegetação nativa, devidamente adequadas às múltiplas faces da nossa geografia. Mas o legado desse plantador de florestas ao Brasil é bem maior, mais vivo e abrange todos os matizes de verde!
Fonte: National Geografic BR

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Tragédia no RJ coloca o Brasil no mapa-múndi das catástrofes

Calamidade natural na região serrana do Rio foi o terceiro maior desastre em número de mortes no ano passado, segundo a ONU





As inundações e os deslizamentos de terra na região serrana do Rio de Janeiro, que vitimaram pelo menos 900 pessoas no verão de 2011, colocaram o Brasil em posição de destaque mundial nas estatísticas de tragédias climáticas. O episódio foi o terceiro maior desastre natural em número de mortes entre os registrados no ano passado, ficando atrás apenas do terremoto seguido de tsunami no Japão, que totalizou 19.846 mortes em março, e das tempestades tropicais nas Filipinas em dezembro, com 1.430 mortes.

Os dados fazem parte de um levantamento da Estratégia In­­ternacional para Redução de Desastres, órgão das Nações Uni­das, e do Centro de In­­ves­­tigação sobre a Epidemiologia dos De­­sastres. O mapeamento divulgado em janeiro mostrou que 302 desastres naturais foram registrados em 2011 no mundo, provocando a morte de 29.782 pessoas e afetando 206 milhões. A quantidade de desastres é inferior à de 2010, que teve 373 ocorrências.

Apesar dessa queda, a tendência observada nos últimos 20 anos é de crescimento, analisa o diretor do Centro de Apoio Científico em Desastres da Universidade Federal do Paraná, Renato Eugênio de Lima. Ele aponta que a médio prazo existem países que vêm contabilizando cada vez mais prejuízos e vítimas, entre eles o Brasil. “Começamos a aparecer [na lista de países com mais mortes] há cerca de três a quatro anos. Agora, existe a necessidade de esforço nacional para reverter essa tendência”, diz.

A tragédia no Rio é considerada a maior da história brasileira. No ano passado, o Brasil reportou seis desastres naturais significativos, ficando na nona posição entre os países com mais ocorrências, de acordo com o levantamento.

Preparo

O estudo destaca que países com renda média e alta registraram grandes catástrofes, apesar de terem mais recursos para melhorar os sistemas de prevenção. O Brasil, por exemplo, gasta 8,5 vezes mais em reconstrução do que em prevenção, de acordo com um levantamento da ONG Contas Abertas.

Falta no país um planejamento urbano para o crescimento ordenado das cidades, observa o professor de Geografia da Pon­tifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro Marcelo Motta. “As chuvas torrenciais são o único problema natural no Brasil e nós não sabemos lidar com ele”, afirma, lembrando que o país está livre de outros desastres como terremotos, vulcões e furacões.

Para o engenheiro florestal e advogado Paulo de Tarso Lara Pires, pós-doutorando em Direito Ambiental e Desastres Naturais na Universidade de Berkeley, a população brasileira vem sofrendo com desastres naturais considerados de fácil solução, mas de grande impacto. Ele aponta que o Brasil começa a se preparar, mas sem uma política clara de prevenção. “No caso do Brasil, quanto maior o investimento público em obras de prevenção e quanto mais preparada estiver a população, menores serão os riscos de que esses eventos se transformem em desastres naturais.”

R$ 16,2 bilhões
é a previsão de investimentos do governo federal, até 2015, na Gestão de Riscos e Resposta a Desastres, de acordo com o Plano Plurianual (PPA) aprovado pela presidente Dilma Rousseff. Estão previstos nos municípios mais críticos o mapeamento da suscetibilidade geológica-geotécnica, monitoramento da ocupação urbana e obras emergenciais em situações de risco iminente. Do total de recursos, R$ 3,5 bilhões devem ser investidos ainda neste ano.

Prejuízos com cataclismas somam US$ 366 bilhões

O ano de 2011 registrou os maiores prejuízos mundiais causados por desastres naturais. O Centro para Investigação sobre Epidemiologia de Desastres estima que as perdas econômicas atingiram US$ 366 bilhões. O recorde até então era de 2005, que teve perdas de US$ 243 bilhões. No ano passado, somente o tsunami no Japão gerou prejuízos na ordem de US$ 210 bilhões.

De acordo com o site das Nações Unidas, pelo segundo ano consecutivo, a ocorrência de terremotos sustentou a tendência de longo prazo de desastres naturais. O órgão pede atenção e precauções em relação às ameaças sísmicas.

“O grande terremoto do leste do Japão e o subsequente tsunami são um lembrete de que não podemos nos dar ao luxo de ignorar as lições da história, não importa o quanto já estejam esquecidas”, disse a chefe da Estratégia Internacional para Re­­dução de Desastres, Margareta Wahlström, de acordo com informações do site do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud). “As muitas cidades importantes que estão localizadas em regiões sísmicas precisam levar a sério a possibilidade de eventos reincidentes, mesmo que muitos anos tenham se passado desde a última atividade sísmica de alta magnitude”, completou.



País terá escritório da ONU contra desastres
Prevenção

O Plano Plurianual (PPA) 2012-2015 estabelece metas do governo federal para a prevenção de tragédias. Acompanhe algumas das ações previstas para o período:

- Implantação do Centro Nacional de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais. O sistema será capaz de incorporar e processar informações de diversas fontes e produzir alertas sobre a probabilidade de desastres.

- Monitoramento e alerta com alto grau de confiabilidade em 251 municípios com riscos de deslizamentos de terra e em 205 municípios com riscos para inundações e enxurradas, até 2015.

- Capacitação de 4,5 mil pessoas nas atividades de defesa civil.

- Implementação do Cartão de Pagamento de Defesa Civil em 2.856 municípios, dos quais 861 na Região Sul. Pelo cartão, o governo federal repassa recursos às cidades e aos estados atingidos por desastres para o atendimento a vítimas e ações emergenciais.

- Contratação de R$ 9 bilhões para apoio à execução de intervenções de drenagem urbana sustentável nos municípios mais suscetíveis a enchentes e inundações recorrentes de áreas urbanas.

- Construção da Barragem de Serro Azul, em Pernambuco; implantação do Sistema de Macrodenagem da Baixada Campista, no Rio de Janeiro; obras de macrodrenagem em Salvador (BA); desassoreamento do Rio Tubarão e controle de enchentes do Rio Itajaí-Açu, em Santa Catarina; urbanização de Macro e Micro Drenagem de Canais em Macapá (AP); e implantação do Sistema de Macrodrenagem na Região Metropolitana de Vitória (ES).

- Modernização e estruturação do Centro Nacional de Gerenciamento de Riscos e Desastres, vinculado à Secretaria Nacional de Defesa Civil.

- Implantação de sistemas de manejo das águas pluviais de parques, bosques e áreas de lazer em regiões de grande suscetibilidade a inundações rápidas e enxurradas.

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Série Plantadores de Florestas - Cap. III - O sequestrador de carbono

No comando da consultoria ambiental Companhia Brasileira de Florestas Tropicais (CBFT), Rodolpho Schmidt promove ações para sequestro de carbono


Rodolpho Schmidt em um de seus reflorestamentos, na região de Campinas.

Aos 16 anos, Rodolpho Schmidt deu uma entrevista para a televisão, na qual declarava sua intenção de seguir os passos do avô - Wolfgang Carl Adolph Schmidt - como plantador de florestas. Alemão de Berlim, seu Schmidt (como o avô era mais conhecido), morava desde os anos 1940, na fazenda Santa Mônica, na região de Joaquim Egídio, Campinas, interior de São Paulo. Há muito havia deixado de "colecionar madeiras para colecionar árvores", como ele dizia. E por sua defesa incondicional do plantio de matas acabara de receber o Prêmio Global 500, junto com sua esposa, Anésia do Amaral Schmidt. Era 1992 e o Brasil sediava a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, a Rio92, durante a qual o casal recebeu a homenagem internacional.

Quando veio para o Brasil, ainda jovem, Wolfgang Schmidt era madeireiro. Encantou-se com a variedade das madeiras nativas e cortou muitas árvores para ganhar a vida. Mas logo percebeu a fragilidade da exploração sem reposição e passou a fazer experimentos de plantio em sua fazenda.

Constituiu um arboreto com mais de 100 espécies madeireiras e, na base de tentativas e observação direta, aprendeu a enxergar o valor da biodiversidade nos reflorestamentos, fossem eles para fins comerciais ou de conservação. Como tudo isso aconteceu numa época em que o movimento ambientalista nem havia nascido, não faltaram más línguas para chamar seu Schmidt de "alemão maluco".

Em sua mesa de madeira reciclada, Rodolpho Schmidt assiste à entrevista que deu aos 16 anos para a TV quando seu avô, Wolfgang Schmidt (no computador à esquerda) ganhou o Prêmio Global 500 da ONU.
Desde pequeno, Rodolpho acompanhava o avô pelo arboreto, ouvindo suas lições apaixonadas junto com a prima Helena. Ele acabou virando engenheiro florestal e ela fez Biologia. Os outros oito netos seguiram caminhos diferentes. Assim, em 2005, quando Wolfgang Schmidt faleceu, aos 100 anos, era natural que Rodolpho herdasse a porção da fazenda onde fica o arboreto, assumindo também a herança imaterial de plantador de florestas.

As árvores do avô hoje são matrizes de onde Rodolpho tira sementes para os seus reflorestamentos, de reconstituição de Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reserva Legal (RL) e, principalmente, para sequestro de carbono (ou seja, plantar árvores para compensar emissões de gases de carbono resultantes da queima de combustíveis e do consumo de energia). As lições aprendidas na infância transparecem na forma de organizar tais plantios e, sobretudo, na sobriedade germânica da prestação de contas de sua empresa, a Companhia Brasileira de Florestas Tropicais ou CBFT.

"Em lugar de primeiro captar recursos de empresas que querem fazer a compensação de carbono e depois procurar um local para plantar, fazemos o inverso. Primeiro procuramos um local, uma fazenda onde é preciso recompor as APPs ou RL ou áreas onde haja a intenção de fazer reflorestamento para exploração comercial. Avaliamos o potencial do local em termos de sequestro de carbono, dividimos em cotas e só então passamos a vender estas cotas", resume Rodolpho, hoje com 36 anos.

Cada árvore plantada recebe um código e é periodicamente fotografada. A empresa ou o organizador de evento que faz a compensação de carbono - ou qualquer outra pessoa interessada - pode acompanhar o crescimento de cada muda via internet. Isso evita duplicação - vender o mesmo plantio para empresas diferentes - e também facilita o cálculo do carbono efetivamente fixado (quer dizer, transformado na madeira do tronco e dos galhos das árvores).


Madeira resultante de podas urbanas ao lado das árvores plantadas por Wolfgang Schmidt, avô de Rodolpho.

Rodolpho agora transforma a madeira resultante de podas urbanas em móveis, contribuindo para a fixação de carbono.

O conceito de reflorestamento usado por Rodolpho também revela a influência do avô. "O reflorestamento é feito com o duplo objetivo de recuperação natural e obtenção de madeira para exploração comercial", explica. "Plantamos uma linha de eucaliptos e uma linha de árvores nativas, de modo intercalado. Os eucaliptos serão aproveitados para lenha ou madeira nos anos iniciais, rendendo até 3 cortes. Eles permitem ao dono da propriedade obter alguma renda enquanto a mata cresce, e fazem sombra para as mudas de nativas, que não crescem a pleno sol. A sombra dos eucaliptos ainda força as árvores nativas a crescerem retas, de forma apropriada para o futuro uso comercial da madeira". Vale notar que o carbono absorvido durante o crescimento de uma árvore se mantém fixado se sua madeira é aproveitada para fazer móveis. O carbono só volta a ser liberado se a árvore apodrecer ou se for queimada.

Outra grande diferença nos plantios é o tratamento dado às impopulares "ervas daninhas". Em lugar de passar a máquina por cima, lutando para eliminá-las, Rodolpho as tem como aliadas. "O alecrim-do-campo e diversas outras plantas consideradas daninhas em lavouras são as pioneiras da reconstituição da mata. Elas é que vão ajudar a formar o solo florestal, possibilitando a sobrevivência das árvores mais nobres e, depois, quando a área já estiver sombreada pelas novas árvores, elas desaparecem naturalmente", diz o engenheiro florestal. "A natureza tende à floresta: basta controlar o pasto ou deixar de plantar outra coisa e a mata rebrota, as aves semeiam, os animais replantam. Basta deixar e não atrapalhar. O mais importante é compreender a natureza e ter paciência".

À parte do plantio de florestas, Rodolpho também faz laudos para prefeituras e para órgãos ambientais, orientando o corte de árvores urbanas em situação de risco: apodrecidas, com cupins, ameaçando cair sobre edificações, danificadas após temporais ou enchentes etc. "Sempre fiquei incomodado com o fato de muitas dessas árvores serem transformadas em lenha ou serem simplesmente queimadas. Após muita negociação consegui trazer parte dessas árvores para a fazenda, para reciclar, construindo móveis". Mesmo os galhos de árvores resultantes da poda urbana, feita para proteger a fiação elétrica, agora se transformam em cadeiras, mesas e objetos de decoração, com apoio da esposa de Rodolpho, a arquiteta Maira Del Nero.

"O uso da madeira urbana demonstra respeito à história das árvores, pois seu produto permanece vivo na forma de peças certificadas. Além disso, ao usar produtos madeireiros certificados, contribuímos para evitar emissões de carbono para a atmosfera", acrescenta, Rodolpho. Alguns desses móveis do Projeto Madeira Urbana - fruto da parceria com o designer Paulo Werneck - venceram na categoria Produto do Prêmio Planeta Casa, em 2010. O prêmio é uma iniciativa da revista Casa Cláudia, realizado em parceria com o movimento Planeta Sustentável, ambos da Editora Abril.

Rodolpho Schmidt também tem um quê de poeta, músico e blogueiro. Compartilha sua produção artística com o público em http://rodolphoschmidt.wordpress.com, misturando conhecimento, capacidade de observação e profissionalismo com a herança de paixão pelas árvores do avô Wolfgang Schmidt. Vale a pena passar por lá para conhecer um pouco melhor esse sequestrador de carbono.
Fonte: National Geografic BR

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Série Plantadores de Florestas - Cap. II - O semeador do Pontal do Paranapanema




Jefferson Lima dedica-se ao projeto Café com Floresta, da ONG Ipê, no Pontal do Paranapanema, onde estimula a plantantação de espécies nativas nos cafezais

Na caminhonete há uma coleção de sacos e sacolinhas, bem amarrados para não deixar escapar o precioso conteúdo. O geógrafo e técnico em agropecuária Jefferson Lima nunca volta com a mesma carga da ida. Também nunca chega ou sai de mãos abanando. Quando faz suas visitas aos assentados do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do Estado de São Paulo, ele é um autêntico dispersor de sementes e de mudas, um extensionista rural como poucos, integrante da equipe do Instituto de Pesquisas Ecológicas, Ipê.

Não por acaso, vários dos assentados com os quais ele trabalha o chamam de professor. Enquanto distribui suas sementes e promove trocas entre agricultores, ele vai semeando ideias, dando uma sugestão aqui; ressaltando a importância da diversidade de culturas ali; chamando a atenção para os cuidados que mantêm viva a fertilidade do solo; as formas de controlar pragas e doenças de maneira natural, sem químicos, e outros muitos princípios da agroecologia.

A base é de troca, sempre: Jefferson pede umas bananeiras boas de produção ao seu Eziel para levar para dona Amélia; tira uns frutos de jaracatiá do quintal da dona Amélia para reproduzir no viveiro; leva um punhado de sementes de milho de pipoca da dona Teresa para José Santiago. Assim vai estreitando os laços entre vizinhos e tecendo a malha da agrofloresta familiar.

No viveiro, tubetes são usados para cultivar as mudas e reaproveitados várias vezes, ao invés de virarem lixo no local de plantio.

Jefferson Lima, da ONG Ipê, enrola o "rocambole" de plantas, que pode ter até 50 mudas, todas prontas para o plantio.

Uma parte das sementes e mudas é de culturas anuais ou perenes, alimentos para os assentados garantirem mesa farta em casa e algum excedente para vender. A contrapartida que ele pede é o plantio de árvores nativas, para formar bosques e recompor a vegetação de uma região com sérios problemas fundiários, agravados a partir dos anos 1940. Nas disputas entre fazendeiros, grileiros, sem-terras e governo, ali no Pontal, o maior perdedor sempre foi o meio ambiente: queimadas, incêndios criminosos e desmatamentos costumavam ser vistos como maneiras de garantir a posse da terra. A ponto de só restarem florestas primárias dentro dos limites estritos do Parque Estadual Morro do Diabo, além de alguns poucos fragmentos florestais esparsos, em fazendas de gado.

Essa dinâmica perdurou até o início dos anos 1990. Então foi criada a organização não-governamental Ipê, com o objetivo de trabalhar a conservação da biodiversidade e a ecologia da paisagem por meio do fortalecimento social e econômico das comunidades locais. Entre as diversas estratégias para alcançar essas metas, a equipe do Ipê conseguiu a proeza de convencer assentados a dedicar pelo menos um hectare de cada lote ao plantio de árvores nativas. Parece pouco para a necessidade da região, mas é bastante para quem tem um lote de apenas 15 a 25 hectares.

O trabalho começou com Laury Cullen Júnior, com os chamados bosques-trampolim, o primeiro passo para implantar corredores de biodiversidade, que promovem a conexão do parque com os fragmentos florestais em terras privadas. Os bosques facilitam a passagem de animais e conservam a saúde genética da fauna silvestre. Jefferson veio em seguida, em 1996, e implantou o sistema Café com Floresta, ou seja, café sombreado por árvores nativas nos lotes de assentamentos. O agricultor ganha com o café, de excelente qualidade; a fauna ganha alimento e abrigo e a paisagem fica mais verde, protegendo a água e o solo.


Aos poucos, a paisagem do Morro do Diabo se modifica, com muito mais verde e mais vida.


Nascido em Porecatu, no Paraná, em 1971, Jefferson teve uma infância de cidade pequena, pontuada por bons contadores de histórias, aventuras no mato e pescarias no rio. Com a passagem pelo colégio agrícola, o trabalho como técnico agrícola da Emater-PR e o envolvimento com o movimento dos sem-terra acabou definitivamente atado à vida rural.

Mesmo agora, em vias de terminar seu doutorado, Jefferson nem pensa em cidade grande. O que ele gosta mesmo é de rodar pelas estradas vicinais na caminhonete e usar a cabeça para encontrar meios e mecanismos de plantar mais árvores, buscar resultados práticos e sustentáveis, tanto nos aspectos ambientais, como econômicos, culturais e sociais e sobretudo familiares. Uma de suas ferramentas, por exemplo, é o "rocambole de mudas", adotado no transporte das futuras árvores para os assentamentos. Em lugar de levar as mudas em bandejas, dentro dos tubetes onde elas são plantadas - o que exigiria um caminhão - Jefferson retira as mudas dos recipientes, alinha até 50 delas sobre um saco plástico e vai enrolando como um rocambole. Com isso, consegue carregar centenas em uma só viagem!

O "rocambole" mantém a umidade das mudas; possibilita a mistura de espécies diferentes (recomendada para o plantio) e facilita o reaproveitamento dos tubetes, evitando que se transformem em lixo no campo. "A ideia não é minha, só aproveitei", faz questão de frisar. Mas todos por ali chamam aquilo de "rocambole do Jefferson". E de rolinho em rolinho, já se foram pelo menos uns dois milhões de mudas de árvores nativas para os assentados!

Jefferson trabalha diretamente com 90 famílias, em diferentes assentamentos, das 140 famílias assistidas pelo Ipê. Além de espalhar os princípios da agroecologia, não descuida do maior problema das propriedades familiares: o êxodo dos jovens para as cidades. Sempre que pode, ele envolve os jovens filhos de assentados no trabalho, seja incentivando a plantar seu próprio cantinho de horta, milho crioulo ou café com floresta, seja acolhendo os mais interessados como monitores, seja levando materiais de estudo, livros, fotos, vídeos e o que mais passar por suas mãos. "Fico orgulhoso quando vejo alguém crescendo, fazendo esse trabalho, um jovem que se dedica ao viveiro, uma jovem que pede aos pais um pedaço de terra para plantar. Quando isso vira cultura popular não tem mais importância como começou, quem originou: a ideia está semeada", diz.

Ele volta a falar com entusiasmo de sua filosofia de trabalho: "A palavra mais importante na agroecologia é depende: depende do solo, depende do clima, depende do agricultor. E a base é a troca de sementes. Sempre que temos uma reunião, convido todos a trazerem suas sementes, principalmente as mulheres. Na hora do café, fazemos as trocas", conta. "A troca garante a diversidade genética e essa diversidade é fundamental para a transição da agricultura convencional para a agroecológica. Os agricultores têm um papel importante no transporte dos genes, o que torna a produção mais sustentável e favorece a biodiversidade."

Na verdade, é fácil notar que Jefferson não cuida apenas do plantio de árvores e das culturas. Em suas visitas aos assentados ele também dá receitas de adubação, é médico do solo, conselheiro familiar, advogado de causas diversas, mecânico de veículos e implementos agrícolas, técnico de TV e o que mais precisar de uma mãozinha. Tudo com a mesma dedicação e com uma vontade de aprender tão grande quanto a de ensinar. O resultado de seu trabalho transparece na maneira como é recebido pelos assentados e aparece na paisagem do Pontal.
Fonte: National Geografic Brasil

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Plantadores de Florestas - Série de reportagens sobre pessoas que recuperam as matas de nosso país





Em 2011, Ano Internacional das Florestas, o site da NATIONAL GEOGRAPHIC BRASIL publica uma série exclusiva de reportagens com fotos e vídeos focada no trabalho de pessoas que estão dedicadas ao replantio de florestas. Quem apresenta os relatos desses personagens é a repórter Liana John, com experiência de mais de 20 anos na cobertura jornalística da área de meio ambiente e preservação.

Capítulo I - Mata Ciliar

Ele plantou 9 milhões de árvores
O engenheiro agrônomo Jorge Bellix de Campos trabalha como presidente da ONG Associação Mata Ciliar e já ajudou no plantio de mais de 9 milhões de árvores

No fundo de seu quintal, o menino Jorge Bellix de Campos só tinha olhos para duas coisas: as jabuticabas pretinhas, pedindo para serem colhidas e devoradas ali mesmo, e a vista privilegiada do Morro do Cristo. Aos 10 anos, ele já sonhava em cobrir com árvores aquelas encostas peladas. Se possível, incluindo muitas jabuticabeiras, para dividir com os passarinhos, e talvez algum jequitibá, a espécie predileta do avô libanês.

Hoje, aos 50 anos, Jorge ainda mora na mesma casa, em Pedreira, interior de São Paulo. Lembra com carinho das primeiras lições de jardinagem aprendidas em família, em especial com uma tia, pintora de mão cheia e amante da natureza. Recorda os ensinamentos do avô, admirador das matas brasileiras. Continua fã de jabuticabas e jequitibás. Formou-se engenheiro agrônomo e multiplicou o sonho de criança por muitas encostas e vales de todo o Estado - e até dos estados vizinhos.

Seja como profissional da Casa da Agricultura ou como presidente voluntário da Associação Mata Ciliar, ele é responsável pelo plantio de cerca de 9 milhões de árvores nativas. Por enquanto...

Jorge Bellix orienta o agricultor José Roque de Souza sobre o manejo das árvores nativas plantadas em sua propriedade, em Socorro (SP).

O primeiro replantio de mata ciliar data de 1986, em Pedreira (SP), onde mora Jorge Bellix. A mata recomposta hoje acompanha o rio Jaguari por dois quilômetros, no trecho em que ele atravessa a cidade.

Apesar de pequena, a mata ciliar replantada em torno de uma nascente já ajudou a melhorar a qualidade da água.

A grande maioria foi destinada à restauração ou ao enriquecimento de matas ciliares e à proteção de nascentes. Quer dizer, além de plantador de florestas, Jorge Bellix é protetor das águas. Avesso a confetes, porém, ele não hesita em declinar do tapete vermelho para percorrer as trilhas de barro das florestas recém-plantadas ou as "ruas" lotadas de mudas em formação, no viveiro da ONG, de onde saem 800 mil futuras árvores por ano, de 250 espécies diferentes. Chega a rodar 300 km por dia em estradas vicinais para orientar produtores rurais ou dar palestras em escolas.

Foi durante o trabalho de educação ambiental na escola do Jardim São Nilo, aliás, que surgiu a ideia de reflorestar a beira do rio Jaguari, sua primeira campanha de peso. O bairro era isolado do resto da cidade de Pedreira e um dos objetivos do plantio era fazer a conexão com o centro. A comunidade abraçou o plantio. De 1986 a 1992, mutirões de crianças, pais e professores plantaram e cuidaram das mudinhas numa faixa de 2 quilômetros por até 20 metros de largura. Aos poucos, o verde se interpôs entre a estrada e o rio. As aves voltaram, ajudaram a adensar o plantio, e outros animais repovoaram a área. Passados 25 anos, visto de cima, o rio mal aparece por detrás das copas fechadas!

Algumas daquelas crianças agora são professores, mas continuam a chamar Jorge para cursos e palestras, e novas campanhas de plantio. Ou simplesmente para mostrar aos alunos que ele existe, confirmando as histórias contadas em aula. De vez em quando, um jovem segura o plantador de florestas pelo braço e agradece suas lições. Lições de mudar vidas. Que prêmio poderia ser melhor?

Mesmo com resultados assim, ainda há muito trabalho pela frente. "Segundo dados oficiais, o Estado de São Paulo tem um déficit de 100 mil quilômetros lineares de matas ciliares. Isso significa bilhões de mudas! E não basta plantar: é preciso cuidar, proteger do fogo, das pragas e do gado, roçar, adubar". Como se não bastasse, é preciso vencer barreiras culturais também. Além de equilibrar pontes sobre o imenso fosso entre a realidade e a legislação feita em gabinetes, longe de quem trabalha a terra. "Passamos 20 anos convencendo o produtor a plantar mata ciliar, a abrir mão de um pouco da produção para ganhar em qualidade de água, tentando compensar no ganho de produtividade. Conseguimos demonstrar que investir em floresta não é fazer papel de bobo", pondera Jorge. "Então, há pouco mais de 5 anos, acirrou-se a discussão sobre o Código Florestal e o poder público veio com obrigações, multas e prazos. Quebrou-se a confiança. Voltamos à situação dos anos 1970!"

Com paciência, o agrônomo procura esclarecer as dúvidas sobre os encargos despejados sobre os agricultores. Explica qual tipo de manejo se pode fazer em Reservas Legais; como deve ser delimitada a faixa de Áreas de Preservação Permanente; onde plantar; o que plantar; como obter matas mais vigorosas. A carência de informações se estende, inclusive, até a casa dos produtores rurais. "Detectamos a necessidade de instalação de fossas sépticas. Começamos um projeto em 2007 e instalamos 180 unidades, evitando que o esgoto seja jogado in natura nos rios. Até o final de 2012 instalaremos mais 300 fossas. Nossa meta é chegar, um dia, às pocilgas e aos currais, evitando também a descarga de dejetos de animais na água".

É uma meta ambiciosa, bem ao estilo do presidente da Associação Mata Ciliar. Como tem feito ao longo dos últimos 25 anos, ele certamente conseguirá garimpar patrocínios e contará com a dedicada equipe de amigos e voluntários para viabilizar mais um sonho em favor do bem comum.

E aquelas encostas peladas da infância? Ainda não estão como Jorge Bellix quer, inteiramente cobertas. Mas os pés do Morro do Cristo não estão mais descalços, hoje se refrescam à sombra das árvores plantadas às margens do rio Jaguari. E uma matinha tímida cresce também num dos flancos. Mais alguns anos e o inveterado plantador de florestas estica seu dedo verde até o topo! Quem viver verá.

Matéria original


segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Mudanças climáticas aumentarão vinda de estrangeiros para o Brasil

Nem mesmo a altitude protege o gelo dos Andes, cujo derretimento pode comprometer o abastecimento de água de vilarejos e cidades


A agricultura nos Andes pode ir ao colapso sem a água das geleiras dos Andes Martin Mejia/AP/28-5-2007 


Após assistir à onda de imigração de haitianos, o Brasil pode se tornar o principal destino de migrações relacionadas a problemas ambientais na América do Sul. As mudanças climáticas, a ciência dá como certo, vão agravar as catástrofes naturais. Secas ficarão mais severas, chuvas, mais fortes e a água, escassa. Nestas circunstâncias, algumas regiões do continente devem sofrer. E, sem ter como permanecer em seus países, alertam especialistas, haverá um afluxo de pessoas buscando refúgio em outras nações. Elas chegarão em situação extremamente vulnerável, muitas vezes sem condições de arcar com despesas básicas, como alimentação e moradia. Na hora de escolher um novo lugar para recomeçar a vida, o Brasil é visto como o melhor destino. A enorme fronteira é uma barreira fácil de ser transpassada. O país não atravessa crise econômica e, além da capacidade de absorver a mão de obra, não impõe restrições severas aos estrangeiros, mesmo que ilegais. A política brasileira de imigração é branda, sobretudo quando comparada com a de outras nações, como os Estados Unidos e os países da Europa.

Entre os países que mais deverão sofrer com as mudanças climáticas na América do Sul, destaque para o Peru. O aquecimento global começa a reduzir as geleiras dos Andes peruanos e isto deverá comprometer o abastecimento de água de vilarejos e cidades, de acordo com o coordenador dos cursos de pós-graduação de gestão ambiental da Escola Politécnica da UFRJ, Haroldo Mattos de Lemos.

Já não há mais tanto gelo dos Andes para derreter, algumas vilas andinas do Peru enfrentam dificuldades de obter água. Se o problema continuar neste ritmo, as pessoas vão ter que se mudar. Este será um dos primeiros problemas ambientais a provocar migrações em larga escala — diz Mattos de Lemos . — Chuvas mais intensas, secas prolongadas, tornados, furacões vão ficar mais frequentes num futuro próximo. Quando isto acontecer, teremos problemas sérios.

Especialistas também citam a Colômbia, a Bolívia, o Equador e a Guiana, além do Peru e do Haiti, como exemplos de países cujos problemas ambientais agravarão movimentos migratórios.

Nem altitude protege mais o gelo dos Andes
Uma das mais majestosas geleiras andinas terá este ano seu fluxo de água de degelo reduzido em 30%. Essa é a previsão de cientistas para a espetacular Cordilheira Branca, no Peru, cujos cumes de numerosas montanhas facilmente ultrapassam os 5 mil metros de altura. Mas nem a grande altitude é capaz de frear o ritmo do aquecimento da temperatura, que faz nevar menos e aumenta o degelo. Segundo uma pesquisa liderada por Michel Baraer, da Universidade McGill, do Canadá — que contou com a participação de especialistas americanos e peruanos e foi publicada há duas semanas na revista “Journal of Glaciology” —, as geleiras que alimentam o Rio Santa, por exemplo, já são pequenas demais para manter o fluxo hídrico.
-As regiões da América Latina que têm uso intensivo de água de geleiras estão entre as mais vulneráveis. — diz Baraer. — Mesmo que as emissões de gases-estufa parem no mundo inteiro, muitas geleiras continuariam retraídas por um tempo.

As geleiras da Patagônia, na Argentina e em parte do Chile, derretem mais rapidamente do que as de qualquer outra parte do planeta, de acordo com dados do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). Na Bolívia e no Equador a retração do gelo do cume dos Andes acelerou nos últimos 20 anos.

O climatologista José Marengo, do CPTEC/Inpe, ressalta que é difícil estimar com precisão quando os eventos climáticos provocarão migrações em larga escala. Mas considera o derretimento de gelo nos Andes como um caso crítico.

— Os estudos indicam o aumento da temperatura média na região andina. Isso reduz as geleiras. Num primeiro momento, aumenta o degelo e há mais água. Mas depois passa a haver menos gelo e, consequentemente, menos água. Algumas estimativas indicam que em 2025 faltará gelo em várias partes dos Andes. E em certas regiões dos Andes tropicais o gelo desaparecerá totalmente — afirma Marengo. — Sem água, habitantes das áreas montanhosas deverão migrar.

A água do degelo sazonal é importante não só para o consumo e as hidroelétricas. Ela também ameaça a biodiversidade de alimentos. No Peru, por exemplo, há centenas de variedades nativas de batatas, todas vulneráveis.

— Parte dos Andes pode virar deserto sem as geleiras — diz Mattos de Lemos.
O Brasil não está livre dos problemas ambientais que causarão migrações. As secas já castigaram extensas áreas do Rio Grande do Sul. A Amazônia também pode sofrer com a instabilidade do regime de chuvas. A falta de chuvas agravará as condições de vida na Região Nordeste, preveem estudos.

— A Amazônia deverá ter menos chuvas. Tivemos duas secas recentemente como sinais das mudanças climáticas. A floresta se tornaria um cerrado — analisa Lemos. — No Sul, há um pequeno deserto se formando na região de Alegrete.

Especialista em migração agravada por questões climáticas, Fernando Malta ressalta que a movimentação de pessoas já acontece. Ele cita casos em Brasil, Peru e Venezuela, em locais em que populações ribeirinhas são obrigadas a se deslocar para fugir de secas ou inundações.
— Há poucos dados científicos sobre migrações — reclama Malta.

Além de enfrentar as catástrofes naturais, que forçaram o abandono do local de origem, e de não encontrar apoio dos governos de seus países, os migrantes ambientais acabam caindo em um vazio jurídico internacional. Os tratados assinados para proteger refugiados prevê apenas cinco causas de perseguição, seja ela política, cultural ou religiosa, entre outras. Porém, não estão listadas as razões climáticas.
Autora do livro "Para entender o direito internacional dos refugiado: análise crítica do conceito refugiado ambiental" (Del Rey, 2009), a professora Luciana Diniz, do Centro Universitário UNA e da Fumec, de Belo Horizonte, defende a criação de um protocolo que trate do tema.

— É preciso criar a obrigação de proteger as pessoas que se deslocam por causa de problemas ambientais. O problema seria como definir estes desastres: o refúgio terá que ser dado somente quando o local de origem for completamente devastado? — questiona Luciana.
Receber um grande contingente de imigrantes pode ser um problema para o país que abriga estas pessoas. Há competição pelos postos de trabalho e custos sociais. Ao limitar o número de vistos concedidos aos haitianos, o Brasil divide especialistas.

— Para cada migrante legal, haverá outros mil ilegais — critica Malta. — Temos que agir com mais rigor nas fronteiras.

Professor titular de Relações Internacionais da UNB, Eduardo Viola diz que o Brasil tende a ser receptor de refugiados da África e Américas do Sul e Central:

— O Brasil é um país de renda média e menos hostil para imigrantes do que as nações europeias. Onda a renda é maior, o controle também é mais rigoroso. Já o climatologista Carlos Nobre, à frente da Secretaria de Políticas e Programas de Pesquisa Desenvolvimento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, defende uma postura mais humanitária.

— O Brasil pode ser um país diferente. Temos que rediscutir o conceito de fronteira, sobretudo quando ela vira um muro, uma barreira, como nos Estados Unidos ou em Israel. Não é possível imaginar o desenvolvimento humano com muros concretos ou virtuais — comenta Nobre. — As trajetórias sustentáveis têm que levar em consideração o movimento migratório, sem que ele seja uma ameaça global à qualidade de vida, mas sendo entendido de uma maneira mais ampla.

O pesquisador acredita que a Rio+20 será palco da criação de um novo modelo de desenvolvimento, que seja socialmente justo, e no qual as fronteiras não serão intransponíveis. Mais do que enfrentar o problema das migrações motivadas por problemas ambientais, Nobre espera que a conferência da ONU no Rio de Janeiro seja um instrumento para garantir os direitos humanos.
Fonte: O Globo

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Ministra defende inclusão social e nova agenda ambiental em encontro no RS


O II Encontro Brasileiro de Secretários de Meio Ambiente integra a programação oficial do Fórum Social Temático e é uma etapa preparatória para a Cúpula dos Povos na Rio+20.




Os avanços alcançados na agenda ambiental  brasileira desde a Rio+10 e as perspectivas para a Rio+20 foi apenas um dos temas abordados pela ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira, na manhã desta quarta-feira (25/1) durante a cerimônia de abertura do II Encontro Brasileiro de Secretários de Meio Ambiente - Articulação Política pela Sustentabilidade, que acontece até sexta-feira (27/1), em Porto Alegre.

Para um público eclético que lotava os 560 lugares do auditório do Ministério Público Estadual, a ministra falou ainda sobre o Código Florestal e inclusão social. Aliás,o tema inclusão social permeou boa parte da fala da ministra que destacou entre os avanços de sua pasta a concessão do Bolsa Verde, programa federal lançado em 2011 e que pretende beneficiar famílias extrativistas da Amazônia Legal e que atualmente beneficia cerca de 73 mil famílias, com projeções de chegar a 300 ou 400 mil famílias beneficiadas.

Izabella Teixeira destacou  também a importância do Relatório de Qualidade do Meio Ambiente (RQMA 2011) em elaboração pela Diretoria de Qualidade Ambiental do Ibama, cujo lançamento está previsto para este ano. Segundo ela, o documento que pretende apresentar à sociedade brasileira o panorama do estado da qualidade ambiental no Brasil, é de vital importância já que  a previsão é que até 2015, 95% da população da América Latina viverão nas cidades.

De acordo com a ministra, o debate sobre o Código Florestal  prossegue. "Não teremos fracasso na discussão sobre o código" afirmou, destacando que a sociedade converge para soluções que foram concluídas. A ministra foi dura ao comentar sobre o desmatamento: "é inaceitável, intolerável que as pessoas continuem desmatando sabendo que isto é proibido". Ela disse ainda que a agenda ambiental não está restrita apenas ao licenciamento e fiscalização, "é preciso crescer, incluir e proteger. Todo povo tem direito e obrigações, então temos de negociar e recolocar a agenda política na agenda ambiental, olhando à frente".

O evento é uma promoção da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Câmara dos Deputados e integra a programação oficial do Fórum Social Temático (que se realiza nas cidades gaúchas de Porto Alegre, Canoas, São Leopoldo e Novo Hamburgo de  24 e 29/01), processo que integra o Fórum Social Mundial e é uma etapa preparatória para a Cúpula dos Povos na Rio+20. Entre os temas do Encontro estão o licenciamento ambiental, política nacional de resíduos sólidos, recursos hídricos e segurança alimentar.
Fonte: MMA

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