Paulo de Tarso Lara Pires, engenheiro florestal, advogado, é mestre em Economia e Política Florestal pela UFPR e doutor em Ciências Florestais (UFPR). Pós-doutorado em Direito Ambiental e Desastres Naturais na Universidade de Berkeley – Califórnia.
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013

Mudanças climáticas: Brasil tem dois cenários preocupantes


O Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) desenvolveu dois cenários de mudanças climáticas para todas as regiões do Brasil até o fim do século 21: um mostra a realidade caso as emissões dos gases do efeito estufa continuem altas e o outro prevê o que ocorrerá em caso de redução. (Veja mapa, que também pode ser acessado pelo link http://www.ccst.inpe.br/sumario-mud-clima)

O pesquisador titular do CCST, Jean Ometto, ressalta que o aquecimento global e as mudanças climáticas são um problema particularmente preocupante para o Brasil.

“O gelo vai derreter com o calor e haverá possibilidade real de alteração no nível do mar. Muitas cidades litorâneas podem sofrer com isso em época de ressaca”, cita. Por outro lado, se o padrão de chuvas mudar, a produção de energia, que vem essencialmente de usinas hidrelétricas, ficará prejudicada. As alterações do clima também poderão trazer prejuízos para a produção agropecuária, que ainda é a base da economia brasileira.

Ometto explica que o aquecimento global se manifesta a partir do acúmulo de gases vindos, essencialmente, da queima de combustíveis fósseis e biomassa (tudo que tem vida) na atmosfera. Isso aumenta a espessura da camada que envolve a Terra, fazendo com que a energia fique retida embaixo. “Céticos dizem que uma coisa não está necessariamente ligada à outra, mas a grande maioria acredita que o processo de aquecimento pode interferir nos padrões climáticos. Os meteorologistas defendem que o calor muda a termodinâmica da atmosfera”, esclarece o pesquisador do Inpe. As emissões dos gases do efeito estufa tendem a acelerar o processo.

A boa notícia é que as emissões brasileiras diminuíram desde 2004. Ometto revela que a redução está associada à biomassa, já que em oito anos o desmatamento da Amazônia caiu quase 70%. O balanço é positivo mesmo com o aumento da queima de combustíveis fósseis, que tem ligação com o crescimento da frota, uso majoritário de transporte de carga por caminhão (alimentado por diesel) e o desenvolvimento industrial. “A incerteza é muito alta. Há estudos dizendo que o calor vai aumentar e o que se espera com as negociações internacionais é que as emissões se limitem a tal ponto que, até 2050, a temperatura não suba dois graus acima da marca de 1750, quando começa a medição”, diz. No último século, já houve um aumento de 1 grau.

Para chegar lá, o pesquisador do Inpe acredita que é preciso haver mais conhecimento científico e vontade política. Além disso, deve-se contar com a colaboração da população, que pode ajudar a administração pública a buscar o uso racional dos recursos naturais.

Mais informações no site do Centro de Ciência do Sistema Terrestre 

terça-feira, 22 de janeiro de 2013

NYT fecha editoria de meio ambiente. E daí?


Por André Trigueiro
A decisão do prestigiado jornal americano The New York Times de fechar sua editoria de meio ambiente e redistribuir os profissionais da equipe (dois editores e sete repórteres especializados) por outras editorias na redação causou polêmica e inspirou acalorados debates em diferentes redes mundo afora.  

O anúncio foi feito uma semana depois de a organização The Daily Climate (que monitora a cobertura dos assuntos relacionados às mudanças climáticas pelas mídias americanas) ter divulgado um relatório informando que nos últimos três anos, o Times foi o veículo que mais se destacou neste gênero de cobertura entre os cinco principais jornais impressos daquele país.

Outro detalhe que chama a atenção sobre a decisão do NYT é a curiosidade crescente do público americano em relação às mudanças climáticas, especialmente depois da fúria arrasadora do furacão Sandy e da onda de calor recorde que provocou quebra de safra e enormes prejuízos no campo em 2012. As mídias dos Estados Unidos também tem acompanhado com especial atenção a revolução energética imposta pelo uso crescente de gás do xisto em lugar dos combustíveis fósseis tradicionais, com a conseqüente redução da importação de petróleo e a diminuição das emissões de gases estufa.

No discurso de posse no National Mall, em Washington, um dia depois de assumir oficialmente o segundo mandato, o presidente Barack Obama sinalizou que nos próximos quatro anos a política da Casa Branca para a questão climática poderá render muitas manchetes quando disse : “Vamos responder à ameaça da mudança climática, sabendo que não agir seria trair os nossos filhos e gerações futuras (…) O caminho para as fontes de energia sustentáveis ​​será longo e, por vezes, difícil. Mas os Estados Unidos não podem resistir a essa transição, é preciso levá-la adiante. Não podemos ceder a outros países a tecnologia que vai gerar empregos e novas indústrias”. 

Por tudo isso, na contramão do NYT, o Los Angeles Times mantém uma editoria especializada em meio ambiente com um editor-chefe, quatro jornalistas em tempo integral,um em tempo parcial e deve abrir mais uma vaga na equipe nos próximos dias.

O editor responsável pela mudança no NYT, Dean Baquet, afirmou que a decisão de desmantelar uma das primeiras editorias de meio ambiente da mídia impressa americana (funcionava desde 2009) se deu por razões puramente estruturais. “Hoje as pautas ambientais fazem parte do mundo dos negócios, da economia, dos assuntos nacionais ou locais, etc. São temas mais complexos. Precisamos ter pessoas trabalhando em diferentes editorias que possam cobrir os diferentes lados dessa pauta”, declarou ele em entrevista a jornalista Katherine Bagley, do blog Inside Climate News ( http://insideclimatenews.org/news/20130111/new-york-times-dismantles-environmental-desk-journalism-fracking-climate-change-science-global-warming-economy )

Ele pode até estar blefando, e ter inventado essa desculpa para reduzir custos com o fim da editoria, mas a explicação faz sentido. O principal risco de uma editoria de meio ambiente (em qualquer veiculo de comunicação) é formalizar uma espécie de “gueto verde” e desconfigurar o caráter transversal e multidisciplinar dos assuntos ambientais. Se a opção é dispor de jornalistas que se identificam e conhecem minimamente os assuntos ambientais (clima, resíduos sólidos, recursos hídricos, biodiversidade, energia,etc) espalhados por todas as editorias, com a intenção de promover o alargamento dos horizontes de cobertura com abordagens menos óbvias, parece genial.

Apenas para dar um exemplo: imaginem um setorista de economia acompanhando uma entrevista coletiva do Ministro da Fazenda aqui no Brasil em que o assunto é mais uma redução do IPI para automóveis.Em uma redação onde os assuntos ambientais sejam objeto do interesse de todos os profissionais indistintamente, este jornalista provavelmente não deixará de perguntar sobre os efeitos da redução do IPI na perda da mobilidade urbana nas principais cidades brasileiras, já colapsadas com engarrafamentos crescentes. Sim, este é um assunto econômico por excelência, do contrário, por que a Fundação Getúlio Vargas de São Paulo estimaria o prejuízo causado pelos engarrafamentos na maior cidade do país em aproximadamente 50 bilhões de reais por ano? Entretanto, é raro no Brasil que um setorista de economia (ou de outra editoria qualquer) saia do seu “quadradinho” e busque essas conexões da pauta com o universo em que ela está inserida. Até acontece, mas é difícil.

É o que se convencionou chamar de visão sistêmica. Todos os assuntos estão de alguma forma inter-relacionados e no universo jornalístico importa revelar esses links, sempre que o resultado desse exercício torne a notícia ainda mais interessante e esclarecedora. Como não relacionar esta crise ambiental sem precedentes na História com nossos hábitos, comportamentos, estilos de vida e padrões de consumo? A cobertura linear dos assuntos não ajuda a entender a dimensão do problema e os caminhos para resolvê-lo.

Em favor da editoria de meio ambiente, poderia se dizer que ela abre caminho para a organização de um núcleo de jornalistas especializados, que foram estimulados (através de cursos, seminários, workshops,etc) a entender os saberes que emergem das comunidades científicas e acadêmicas com muito mais facilidade do que seus colegas.       

O jornalista é, via de regra, um generalista. Um contador de histórias preparado para realizar diferentes mergulhos nas mais diferentes áreas do conhecimento. Mas se não houver jornalistas preparados para a nobre função de “decodificar” ou “traduzir” esses novos saberes que explicitam o senso de urgência em favor de um novo modelo de desenvolvimento mais sustentável, replicaremos nas redações o analfabetismo ambiental. Nada mais impróprio, considerando que a crise ambiental sem precedentes na História da humanidade requer jornalistas minimamente preparados para reconhecer os diagnósticos preocupantes, explicá-los com clareza e objetividade, e sinalizar rumo e perspectiva com pautas criativas e interessantes. 

Já testemunhei várias queixas de pessoas extremamente qualificadas em diferentes áreas do saber e do conhecimento que se decepcionaram com o nível das perguntas feitas por jornalistas, ou, pior, com a deformação das informações prestadas que mais tarde se transformam em reportagens desprovidas de sentido. Há situações em que o desagrado é tão grande que essas fontes simplesmente se negam a dar entrevistas ou tornam-se arredias à simples ideia de compartilhar seus conhecimentos com alguém que não lhes pareça confiável.Quando isso acontece, aumenta-se a distância que separa a sociedade da ciência, e avalizamos o comportamento dos governantes omissos, que preferem ignorar os sucessivos alertas em favor das mudanças.

No artigo “É tempo de fechar a porta do inferno”, publicado no último dia 19/1, o colunista da Folha de São Paulo Clóvis Rossi usa expressões fortes para denunciar a necessidade dos tomadores de decisão reagir à crise climática:  “O mundo todo está vivendo uma situação de mudança climática que anuncia uma catástrofe em algum momento futuro. Sei que esse tipo de alerta costuma cair no vazio quando feito por entidades ambientalistas, desprezadas como ecochatas. Mas, agora, as sirenes estão sendo acionadas pelo empresariado, exatamente aquele que hesita em pagar os custos da adaptação da economia a modos de produção mais amigáveis ao ambiente”. Clóvis não é setorista de meio ambiente. É um generalista, como os profissionais de imprensa devem ser. Mas exerceu o melhor jornalismo, quando se apropriou de relatórios produzidos por seguradoras e consultorias especializadas para retirar dali o que lhe parecia uma notícia importante.

 Com ou sem editoria de meio ambiente, o que importa é a correta cobertura dos assuntos ambientais. Que cada redação defina o método que lhe convenha, sem descuidar do objetivo final. Esse filão de notícias está condenado a crescer ainda mais em importância e prestígio nas próximas décadas e ignorar essa realidade (mensurável em relação aos espaços já conquistados por demanda do próprio mercado) pode custar muito caro. 

Fonte: Mundo Sustentável/G1

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Mudanças climáticas


O grande desafio ambiental deste século será frear o aquecimento global que já está provocando alterações no clima do planeta. Aqui você vai conhecer como funciona esse mecanismo, suas causas, consequências e possíveis soluções

Fonte: Horizonte Geográfico

As enchentes nas grandes cidades, como em São Paulo, podem se tornar mais frequentes.

Efeito estufa, aquecimento global e mudanças climáticas são expressões que estão cada vez mais incorporadas ao vocabulário daqueles que se interessam pelo futuro da Terra. 

O efeito estufa é um fenômeno natural de importância fundamental à existência de vida no planeta. Ele é provocado principalmente por três gases que existem na atmosfera – a maior parte é o dióxido de carbono (CO2), depois há o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O), que formam uma espécie de filme de plástico sobre o planeta. Como uma estufa mesmo, que permite a entrada da luz do Sol e impede a dissipação do calor. Não fosse por esse mecanismo, a vida na Terra não seria possível, pois é ele que garante a temperatura do planeta numa média de 15 graus, adequada à existência de água líquida e dos seres vivos. Sem o efeito estufa, a temperatura aqui seria semelhante à da Lua, com média de 18 graus negativos! 
É fácil perceber que ao aumentarmos a emissão desses gases estamos também aumentando o mecanismo de efeito estufa. Em outras palavras, estamos promovendo o aquecimento global. Isso já está acontecendo. Segundo relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudança no Clima (IPCC), que reúne 2500 cientistas de mais de 130 países, a média global da temperatura aumentou, no século passado, 0,7 grau. Pode parecer pouco para constituir uma ameaça, mas não é, porque se trata de uma média. Ou seja, em alguns locais houve aumentos de temperatura muito maiores do que em outros, com consequências localizadas – como, por exemplo, o degelo acentuado nos polos do planeta ou dos picos das montanhas mais altas.
Esse aumento da temperatura média provoca o que passou a se chamar de “mudanças climáticas”. Isso significa, segundo os pesquisadores, que teremos mais situações extremas – como o aumento de furacões, o recrudescimento de inundações e mais secas. 

O efeito estufa provoca o aquecimento global, que, por sua vez, leva às mudanças climáticas fazendo parte de um ciclo de causas e consequências que pode ficar mais grave à medida que a origem de tudo – a emissão dos gases de efeito estufa – continue crescendo. Impedir esse aumento de emissões para minimizar os danos exige, da mesma forma, novos comportamentos, novos formas de produção e um novo conceito de desenvolvimento: o sustentável.


Consequências que estão por vir

O aquecimento global irá gerar mudanças em regiões remotas, mas também preocupam os efeitos que serão sentidos nos centros urbanos

Em 2007, o IPCC confirmou a tese de que o planeta não apenas está mais quente, mas também que a causa desse aquecimento tem relação direta com a atividade humana. Um estudo demonstrou que o aumento da temperatura do planeta “coincide” com o aumento da emissão de gás carbônico (veja gráfico abaixo). 

Quando pensamos nas causas desse fenômeno é inevitável uma reflexão sobre o modelo de desenvolvimento adotado, principalmente a partir da Revolução Industrial no século 19, baseado na produção a qualquer preço, na energia gerada pelos combustíveis fósseis, no avanço da agricultura e dos aglomerados urbanos sobre a natureza e na tecnologia atrelada a essas atividades. O aquecimento global e as consequentes mudanças climáticas têm causas sistêmicas, em que atuam diversos fatores entrelaçados – e que estão intimamente ligados à maneira com que a economia global vem se desenvolvendo nas últimas décadas. 

Fábio Feldmann, ambientalista e secretário-executivo do Fórum Paulista de Mudanças Climáticas Globais, acredita que a questão já faz parte da agenda da política internacional por meio da discussão de uma mudança da matriz energética “em direção a fontes de energia renovável e limpa, redução do desmatamento e da emissão de gases dos aterros sanitários”. Mas isso não basta. Segundo ele, é preciso pensar já nas consequências dessas mudanças climáticas. Apesar de a discussão girar sempre sobre o desaparecimento de ilhas rasas nos oceanos, as secas prolongadas em regiões semiáridas ou a savanização das florestas, é também essencial avaliar os impactos sobre as populações. “Os maiores efeitos serão vistos nas grandes cidades”, diz ele dando como exemplo desses efeitos, o aumento da intensidade das chuvas, dos deslizamentos e das enchentes nas áreas urbanas. 

As ações destinadas a enfrentar o problema não devem ser, portanto, apenas medidas para combatê-lo – ou seja, relacionadas à redução da liberação de gases ou do desmatamento –, mas também as chamadas medidas de adaptação, que representam alterações nas estruturas da cidade e do campo para suportar as alterações do clima.


Desmatamento: o papel do Brasil

Cabe aos brasileiros encontrar meios de explorar a floresta amazônica sem agravar o aquecimento global

O desmatamento tem um papel fundamental no processo de aquecimento global e de mudanças climáticas. O problema não é devido à suposta menor produção de oxigênio provocada pela redução da mata, como muitos acreditam, mas, sim, pelo gás carbônico liberado pela queima das florestas. 

É o que explica Roberto Waack, presidente da empresa de gestão ambiental Amata e membro da comissão internacional do FSC (siga em inglês para Conselho de Manejo Florestal). Segundo ele, as florestas armazenam no solo e na estrutura celular o gás carbônico que absorvem da atmosfera. Quando ocorre o desflorestamento, tanto pela queima como pela derrubada das árvores, esse gás armazenado é liberado para a atmosfera, agravando o processo de efeito estufa. A questão atinge principalmente os países em desenvolvimento porque são os que ainda preservam áreas grandes de florestas. E o Brasil é o que tem a maior floresta do mundo.

Por causa do processo de ocupação e desenvolvimento da Amazônia, executado sem planejamento e atenção às causas do aquecimento global, a floresta vem dando lugar a pastos e áreas agrícolas e, assim, liberando gás carbônico na atmosfera – e é por isso que o Brasil é o país que ocupa o quinto lugar como maior emissor mundial de gases de efeito estufa e o desmatamento é responsável por mais da metade dessas emissões. Segundo o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, 3% das emissões globais de CO2 são oriundas da destruição das florestas brasileiras. 
Soma-se a esses dados o fato de que, segundo o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), 10% do total mundial de áreas florestadas estão no Brasil. São 4,8 milhões de km², o equivalente a 19 estados de São Paulo. “É preciso encontrar formas de manter as florestas em pé”, considera Waack, “elas são essenciais não só pela questão do carbono, mas também para o clima, por interferir no ciclo de chuvas, entre outras coisas.” Para Waack, é preciso agir em duas frentes para se evitar o desmatamento: de um lado, investindo em inovação e tecnologia. E, por outro, criando formas que recompensam financeiramente aqueles que preservam a floresta, ainda que exerçam atividades econômicas ligadas a ela. Por exemplo, por meio da certificação da madeira, pela qual se garante que o produto foi extraído da floresta com um mínimo de impacto ambiental. Madeiras certificadas alcançam valores de mercado bem mais altos do que aquelas que não o são, induzindo um ciclo de produção de mais qualidade e menos agressão ao meio ambiente. 

A necessidade de se agir imediatamente na proteção das áreas florestadas brasileiras está comprovada em uma projeção feita pela consultoria internacional McKinsey & Company, no estudo Caminhos Para Uma Economia de Baixa Emissão de Carbono no Brasil. A pesquisa, que analisou um cenário comparativo entre a situação atual e o ano de 2030, indicou que 85% do potencial brasileiro de redução nas emissões de gases de efeito estufa está ligado à diminuição dos desmatamentos e à reestruturação dos setores de pecuária e de agricultura. O Brasil aparece ainda entre os países com maior potencial para a redução dessas emissões, atrás apenas dos Estados Unidos, China e Rússia. 
Um primeiro passo foi a fixação de uma meta para a preservação das florestas no Plano Nacional sobre Mudanças Climáticas, documento divulgado pelo Ministério do Meio Ambiente em 2008 e que detalha as áreas estratégicas para a redução da emissão de gases de efeito estufa no país. No compromisso, assumido pelo governo, está prevista a redução, a cada cinco anos, de 42% da área total desmatada até 2020.


Um modelo em questão

O desenvolvimento da humanidade apoia-se no consumo de petróleo e carvão mineral, os principais responsáveis pelo aquecimento global

O carvão mineral, a partir do século 19, e o petróleo, a partir do século 20, foram os principais combustíveis que moveram as máquinas das indústrias e os veículos automotores, responsáveis pelo modelo de desenvolvimento econômico adotado desde a Revolução Industrial e que dura até hoje Um modelo cujo preço está sendo pago agora. O relatório do IPCC deu uma dimensão mais exata do problema, mostrando que cerca de 60% das emissões de gases que contribuem para o agravamento do efeito estufa são provenientes da queima de combustíveis fósseis – tanto o carvão mineral como o petróleo e seus subprodutos. Segundo Arnaldo Walter, pesquisador do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas), cerca de 80% da energia elétrica do mundo e quase a totalidade dos combustíveis usados no transporte têm origem fóssil. 

Mudar esse cenário, na análise de Walter, é um processo delicado. Além de requerer tempo e recursos financeiros, envolve boa vontade política dos países envolvidos, pois requer mudanças estratégicas nos modelos energéticos nacionais. “Primeiro há de se considerar todo o estoque de equipamentos existentes. Segundo, há de se ter em conta os custos relativos. Terceiro, há de se considerar o estágio de desenvolvimento das tecnologias. Quarto, os interesses econômicos em jogo. Quinto, que o uso de qualquer fonte de energia tem impactos ambientais associados”, sintetiza.
Todavia, isso não significa que seja impossível enfrentar o problema. Já há, inclusive, clareza sobre as principais medidas que devem ser tomadas para reduzir o impacto da queima de combustíveis fósseis sobre o efeito estufa. É preciso que haja a diversificação das matrizes energéticas, o desenvolvimento de tecnologias mais eficientes na conversão e no uso de energia e a redução do consumo. “Se não fosse preciso gerar parte da eletricidade que é consumida, melhor”, diz Walter.


A solução para o transporte

Além de grandes emissores de gás carbônico, a mobilidade dos automóveis já não é mais a mesma. É hora de explorar alternativas

Omodelo de desenvolvimento calcado no transporte rodoviário foi a opção que a maioria dos países adotou no último século. Lester Brown, referência mundial na área ambiental, fundador e presidente do Earth Policy Institute – organização americana que trabalha a sustentabilidade para o desenvolvimento econômico –, prevê o colapso desse modelo. Para Brown, situações como a dos Estados Unidos, na qual há três carros para cada quatro pessoas, em breve se tornarão inviáveis. A tendência de migração das zonas rurais para centros urbanos exige sistemas de transporte adaptados a essa nova demanda populacional. Brown ironiza que, se os automóveis nasceram tendo como promessa a mobilidade, hoje eles promovem a imobilidade, simbolizada pelas centenas de quilômetros de congestionamentos vistos todos os dias nas maiores cidades do mundo.

Mas, mais que o incômodo do trânsito, a queima de gasolina e diesel – ambos produtos derivados do petróleo – nos motores de carros e caminhões é fonte de parte considerável das emissões de CO2. Um exemplo extremo são os Estados Unidos, maior emissor do mundo de gases que agravam o efeito estufa e onde os transportes são o segundo setor que mais emite, com 28%, ficando apenas um pouco atrás do setor de geração de energia elétrica, com 33%.
Entretanto, já há pelo mundo soluções que têm se mostrado eficientes para a redução da dependência de combustíveis fósseis para o transporte. Uma delas são os trens-bala europeus e japoneses, que, além de atrair centenas de passageiros pela rapidez das viagens, têm emissões bem mais baixas de CO2 que outros meios de transporte. 

Segundo Brown, elas chegam a ser um terço menores que a dos carros e um quarto inferiores à dos aviões. E podem chegar a zero, caso a eletricidade usada para se colocar os trens em movimento venha de fontes limpas e renováveis – o que ainda não é uma realidade na União Europeia.
No Brasil, o etanol, usado como combustível de veículos, e o bagaço da cana, para a geração de eletricidade, já são responsáveis por 16% de toda a energia consumida no país. O Proálcool (Programa Brasileiro de Álcool), na década de 70, obrigou o acréscimo de álcool à gasolina. O percentual da mistura variou ao longo dos anos e, atualmente, a gasolina brasileira recebe de 20% a 25% de etanol. Assim, de 1970 a 2007, o Ministério de Minas e Energia calcula que 854 milhões de barris de petróleo tenham sido substituídos por etanol, evitando-se a descarga de 800 milhões de toneladas de CO2 na atmosfera. Mais recentemente surgiram novos modelos no Brasil, como o da utilização da biomassa nas usinas de produção de açúcar e do etanol: os quilowatts produzidos pelo bagaço da cana-de-açúcar são suficiente para atender à demanda energética das próprias usinas. Segundo Luiz Fernando Amaral, assessor de meio ambiente da Única (União da Indústria de Cana-de-Açúcar) “cerca de 3% da energia elétrica no Brasil é produzida a partir da cana”.


Novos caminhos para a eletricidade

Fontes pouco exploradas de produção de eletricidade devem receber grandes investimentos a partir de agora, como a força dos ventos e a solar

Para quem vive no Brasil, onde 88,7% da energia elétrica vem de fontes renováveis, pode parecer estranho que grande parte do mundo dependa de combustíveis fósseis para gerá-la. Mas, como analisa Arnaldo Walter, da Unicamp, o país é um caso atípico, por ter um potencial hidrelétrico em que quase 70% da capacidade ainda não é aproveitada e por possuir condições favoráveis para a produção de biomassa – como a lenha e o bagaço da cana. O mesmo não acontece, por exemplo, com a China, principal economia mundial em expansão, segunda maior emissora de gases de efeito estufa do globo e cuja matriz energética vem, em grande parte, da queima de carvão mineral. 

Lá, as emissões de gases de efeito estufa estão associadas, primordialmente, à produção e ao consumo de energia elétrica, com o carvão mineral respondendo por 80% das emissões chinesas de CO2. Os métodos antiquados para a produção de eletricidade intensificam as chuvas ácidas e a poluição do solo e dos rios. Para reverter a situação chinesa, de acordo com Walter, é necessário aumentar a eficiência na geração, na transmissão e no uso final da eletricidade, além de diversificar sua matriz de geração elétrica. 
De forma geral, a diversificação das fontes de energia é apontada como medida essencial para os governos nacionais, com potenciais ainda pouco explorados, como a geração de eletricidade pelo vento ou por pequenas centrais hidrelétricas.


O uso do solo também produz gases

A agricultura e a pecuária contribuem para o aquecimento global e exigem novas tecnologias para reduzir esse processo

Não é apenas quando o homem desmata áreas verdes que há emissões de gases de efeito estufa. O cultivo de plantações ou as criações de gado também contribuem para o aquecimento global. Como explica o professor Luiz Claudio Costa, Ph.D. em agrometeorologia e reitor da Universidade Federal de Viçosa, a agricultura é responsável por cerca de 30% das emissões de gases de efeito estufa no mundo. Mas, ao contrário de outros agentes das alterações no clima –que contribuem principalmente com gás carbônico –, o vilão da atividade são o metano (CH4) e o óxido nitroso (N2O). O primeiro, liberado pelas áreas alagadas para a produção de arroz, pelo processo de digestão da celulose dos ruminantes e pela decomposição do esterco. O segundo, presente nos fertilizantes nitrogenados, muito usados na agricultura.
Uma das soluções para a redução dos gases emitidos pelo uso do solo é o chamado plantio direto. O modelo já vem sendo desenvolvido no Brasil desde a década de 70, principalmente por agricultores do sul do país, no cultivo de grãos. Nessa forma de plantio, parte da matéria verde da planta – como restos de folhas e a palha – são deixados no campo após a colheita. Essa nova camada de matéria orgânica, mais exterior, diminui a necessidade de se revirar o solo. Além disso, como explica Costa, “reduz a erosão, melhora as condições físicas e de fertilidade do solo, aumenta o teor de nutrientes e de água armazenados e diminui o consumo de combustíveis com a manutenção da produtividade das culturas”. 

Entretanto, Ângelo Gurgel, professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade de Ribeirão Preto, da USP, ressalta a importância de se associar o uso do solo com o desflorestamento ao se avaliar o problema do aumento das emissões de gases. Isso porque a abertura de novas áreas agrícolas é uma das principais causas do desmatamento. Como aponta Gurgel, evitar o corte de áreas florestadas passa por um melhor aproveitamento dos terrenos já usados para o plantio e a criação de gado. Segundo o IBGE, atualmente quase metade dos 354 milhões de hectares agricultáveis brasileiros são ocupados por pastos. “Existe um grande potencial de uso de áreas já abertas para a agricultura, hoje subutilizadas na forma de pastagens de baixa produtividade”, lembra o professor.

Texto: Rachel Costa e Roberto Amado

quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Ventos do mundo podem garantir energia limpa até 2030, diz estudo

Turbinas em toda a superfície criariam 16 vezes mais energia que necessário.
Maior potencial eólico está sobre os oceanos, segundo cientistas.



Um estudo da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, afirma que as fontes de vento disponíveis no planeta são muito maiores do que as necessárias para suprir a demanda por energia de um modo limpo e econômico no mundo até 2030.

A maior parte do potencial eólico necessário está sobre os oceanos, afirmam os cientistas. Para determinar o potencial máximo de vento do planeta, eles criaram um modelo atmosférico em 3D, levando em conta o uso de turbinas de vento para extração da energia do ar circulante.

Os pesquisadores dizem que há um limite para a quantidade de energia que pode ser extraída da atmosfera. Eles calcularam qual seria o potencial eólico a 100 metros acima do nível do solo, altura média do eixo das turbinas de vento.

Pelo estudo, publicado no periódico "Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America", os ventos do planeta podem produzir mais de 250 terawatts se forem instaladas turbinas em toda a superfície do globo a 100 metros do solo.

O número equivale a mais de 16 vezes a energia consumida pela população do planeta em 2008. Já a 10 quilômetros acima do nível do chão, altura em que os ventos adquirem velocidade muito maior, a produção energética pode chegar a 380 terawatts. Em 2008, o consumo de energia em todo o planeta foi de aproximadamente 15 terawatts, segundo reportagem da revista "The Economist".

Se for considerada apenas a superfície do planeta que é coberta por rochas e solo (sem levar em conta mares, rios e oceanos), e se forem instaladas turbinas também no litoral, a produção chegaria a 80 terawatts, segundo os pesquisadores.


Ponto de saturação
Autores do estudo, os cientistas Mark Jacobson e Cristina Archer chegaram à conclusão que há um ponto de saturação para o número de turbinas usadas para extrair energia eólica. Segundo eles, no ponto de saturação nenhuma turbina consegue extrair mais de 59,3% da energia cinética do vento para transformá-la em elétrica.

Os cientistas calcularam que 4 milhões de turbinas operando a 100 metros do solo e produzindo 5 megawatts cada uma poderiam suprir uma demanda de 7,5 terawatts - mais da metade do que é consumido hoje em termos de energia elétrica no mundo.

Criar "fazendas de vento" em locais geograficamente escolhidos, com um número fixo de turbinas, pode aumentar a produtividade da energia eólica, diz a pesquisa. Os cientistas sugerem também aproveitar a colocação de turbinas nos oceanos e regiões marítimas para otimizar os ganhos com este tipo de energia.

Fonte: Globo Natureza

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Mercado voluntário de carbono alcança US$ 576 milhões


Ferramenta que facilita o investimento em ações de redução de emissões de gases do efeito estufa registrou em 2011 o maior valor de transações nos últimos três anos


 Apesar da crise econômica que assola a Europa e que está freando até o crescimento dos países emergentes, os resultados do mercado voluntário de carbono em 2011 surpreenderam e demonstram o maior interesse corporativo por iniciativas climáticas.

De acordo com o relatório State of the Voluntary Carbon Markets 2012, as transações de créditos de carbono no mercado voluntário em 2011 somaram US$ 576 milhões, ficando atrás somente do número alcançado em 2008, US$ 776 milhões.

Os compradores corporativos dominaram o mercado, contribuindo com US$ 368 milhões, cerca de 65%. A maioria das transações foi originada na Europa, porém o relatório reconhece o crescimento do interesse de empresas norte-americanas pelos créditos voluntários.

Imagens: Divisão no mercado voluntário por tipo
 de projeto e por países compradores / Ecosystem Marketplace 
“A demanda tem se mantido forte mesmo com as condições econômicas desafiadoras. Os compradores corporativos estão realmente interessados em créditos de carbono e em ações de neutralização”, afirma Jamal Gore, diretor da Carbon Clear, empresa que patrocinou o relatório.

Os projetos de energia renovável foram os mais populares no ano passado, gerando 45% de todos os créditos comercializados. O setor eólico aparece como o grande dominante, respondendo por 30% do total do mercado.

O relatório também registra o aumento da participação de projetos de Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação (REDD), alcançando 9%. Créditos com a combinação de padrões VCS e CCB são os mais populares, transacionando 2,8 MtCO2e em 2011.

“O State of the Voluntary Carbon Markets destaca o contínuo aumento da maturidade do mercado voluntário, o que, diante da atual crise no mercado compulsório, fica ainda mais louvável. A amplitude e a qualidade dos créditos disponíveis estão melhores do que nunca, em parte graças à evolução dos padrões e das inovações nas metodologias”, declarou Gore.

Brasil

Entre as nações latino-americanas, o Brasil segue sendo dominante, com o maior volume de geração de créditos, 5,7 MtCO2e. Os projetos estariam sendo estimulados pelo aumento do número de compradores no próprio mercado interno brasileiro.

Outra boa notícia para os desenvolvedores brasileiros é que os créditos com padrão VCS combinado com a certificação de Carbono Social aumentaram sua participação no mercado em 81%. Essa combinação é a mais utilizada por projetos de biomassa ou de substituição de combustíveis fósseis no Brasil.

Apesar de o relatório apontar que as políticas para o mercado voluntário têm sido aplicadas lentamente na América Latina, algumas iniciativas já chamam a atenção, como as do estado do Rio de Janeiro, que lançou a Bolsa Verde do Rio e prepara para a conferência Rio+20 o anúncio de um mercado de carbono propriamente dito.

Outra promessa que pode significar um grande salto nos números nacionais é a inclusão dos créditos florestais do Acre no mercado de carbono da Califórnia.

“O diálogo entre o governo californiano e os estados do Acre, no Brasil, e de Chiapas, no México, sobre criar um programa de REDD que funcione no mercado da Califórnia, tem acontecido. Porém, apesar desses sinais promissores, atualmente a diretoria do California Air Resources está apenas considerando essas opções e provavelmente não veremos o REDD na ferramenta antes do segundo período de compromissos (2015)”, afirmou Derik Broekhoff, vice-presidente de políticas do California Air Resources.

Fonte: Instituto Carbono Brasil

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