Paulo de Tarso Lara Pires, engenheiro florestal, advogado, é mestre em Economia e Política Florestal pela UFPR e doutor em Ciências Florestais (UFPR). Pós-doutorado em Direito Ambiental e Desastres Naturais na Universidade de Berkeley – Califórnia.
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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

Mato Grosso implementa sistema estadual de redução de emisssão de gases do efeito estufa


Empresas reclamam da ausência de regulação ambiental; movimentos sociais e indígenas são contrários ao REDD. 
Empresas reclamam da ausência de regulação ambiental;
 movimentos sociais e indígenas são contrários ao REDD.
Foto: Thiago Foresti

É uma sigla complicada, que pouca gente conhece, mas o REDD (ou Redução de Emissões por Desmatamento e Degradação) é tido como um dos principais programas de incentivo econômico para a redução do desmatamento no mundo pelas Nações Unidas. A proposta do REDD é incluir na contabilidade das emissões de gases de efeito estufa as emissões evitadas com a redução do desmatamento e a degradação florestal. Ou seja: dar valor real para a conservação através de projetos e programas que comprovem na prática a sua eficácia na manutenção dos estoques de carbono.

O governo de Mato Grosso, estado com um histórico crescimento gigantesco do agronegócio e bastante criticado por ambientalistas, está de olho nesse “incentivo”. Segundo dados do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), o estado alcançou uma redução de 1,2 milhões de toneladas de Co2 no período de 2006 a 2011. “É um número impressionante que fica atrás apenas do que foi apresentado pela Alemanha, país com uma arrojada política ambiental”, diz Daniel Nepstad, pesquisador do IPAM.

Para Nesptad, vários os fatores forçaram essa redução, tais como a moratória da soja e da carne, o cadastramento ambiental rural (CAR) e as chamadas mesas redondas de negociação da soja. “Está na hora do estado obter reconhecimento por essas reduções e a consolidação de uma política de REDD é uma excelente oportunidade”, afirma.

Em agosto, o governo de Mato Grosso enviou à Assembleia Legislativa do estado uma proposta de sistema estadual de REDD que deve ser votada ainda este ano. Para debater o assunto, foi realizado em agosto o seminário REDD+ em Mato Grosso: rumo à implementação. O evento contou com a presença do diretor do Programa Internacional da Iniciativa para Clima e Florestas do governo da Noruega, Per Fredrik Ilsaas Pharo, e o diretor da Permian Global, Jason Patrick.

Com a aprovação do sistema estadual, Mato Grosso se junta ao Acre e a outros 22 estados subnacionais de países como Estados Unidos, Indonésia, Nigéria, México e Peru que já têm marcos legais próprios para a implementação de projetos de REDD. O objetivo agora é integrar essas políticas e fomentar a regulação de sistemas nacionais e internacionais. “O que a gente busca é dar um pontapé inicial para o estabelecimento de marcos legais. São várias pecinhas dentro desse grande mecanismo que ainda serão aprimoradas com o tempo, mas precisamos desse marco legal para começar a trabalhar”, diz Andréa Azevedo, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM).

O projeto de lei de Mato Grosso prevê a criação de um amplo inventário de emissões e a definição de uma linha de base para medir níveis de desmatamento. São passos importantes para consolidação de uma política estadual, mas, segundo Bruno Simionato, analista de carbono do ICV, ainda existe muita incerteza em relação à contabilidade dos estoques de carbono florestais. “Fizemos um mapeamento de carbono só para o município de Cotriguaçu [950 km de Cuiabá] e a variação foi muito grande. Notamos que essa contabilidade depende de muitos fatores como tipologia florestal, altitude e solo. É um terreno incerto”, diz.

Além das dificuldades de medição, os programas nacionais e estaduais ainda não estão preparados para reivindicarem créditos de carbono no âmbito da Convenção de Clima da ONU e só sobrevivem através de financiamento oriundos de fundos, como o Fundo Amazônia, e outros de países desenvolvidos como a Noruega. Além disso, a falta de regulamentação por parte dos estados e do governo federal torna o terreno do REDD muito mais difícil de ser percorrido para empresas com interesse em investir na gestão florestal.

Empresas sofrem com a falta de regulação adequada

Plinio Ribeiro, diretor da Biofílica Investimentos Ambientais, diz que a indefinição nos marcos regulatórios é o pior cenário para uma empresa. “Quando criamos a Biofílica, há quatro anos, imaginávamos que os acordos numa hora dessas já estariam mais robustos e implementados, mas não estão”. Ribeiro diz que o que não falta é a capacidade de regular a oferta ou de saber como fazer projetos bem feitos: “O mercado é muito rápido em eliminar os exemplos ruins e deixar os bons. O que falta nesse momento é um compromisso maior dos países e estados para criar restrições e oferecer mecanismos de compensação”.

“Infelizmente hoje, quando falamos em gestão florestal dentro setor privado acabamos caindo na madeira ou no carbono. Quando concebemos nossa empresa pensamos em três premissas básicas. A primeira é a de que o Brasil tem o maior território de floresta tropical do mundo, a segunda é que esse território não é bem gerido, isso quando é gerido, e a terceira é que existe uma relação clara entre floresta e clima e floresta e biodiversidade. Então pensamos que talvez existisse um modelo de negócio que pudesse se propor a gerir esses territórios”, diz Ribeiro.

Movimentos Sociais e indígenas não vêm o REDD com bons olhos

Outra forte resistência encontrada por quem trabalha com o REDD são os movimentos sociais. “Essa tal economia verde é só mais uma tentativa de curar um doente com o mesmo veneno. O que eles querem fazer é trocar o rótulo, ou seja, o que se prega como solução para a crise é justamente a causa da crise”, diz Herman Hudson Oliveira, diretor do Fórum Mato-Grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento (Formad).

Indígenas também demonstram preocupação com o mecanismo. Estevão Bororo, da aldeia Córrego Grande, questiona se os indígenas não vão perder autonomia sobre seus territórios através de contratos de REDD. “Sabemos de histórias de contratos com terras indígenas que prometem muito dinheiro, mas que tiram do índio a possibilidade de autonomia sobre seu território”, diz Estevão.

“É justamente isso que a gente não quer. Essa falta de regulação do mercado abre uma grande brecha para os chamados carbon cowboys, que são aquelas empresas que ninguém sabe de onde vêm, falam com os indígenas, prometem milhões e chegam com contratos malucos dizendo que os índios não podem mexer na terra deles.”, diz Andréa Azevedo pesquisadora do Ipam.

A pesquisadora acredita que o REDD pode ser uma forma de mudar os rumos da economia atual. “O sistema jurisdicional evita uma abordagem negativa de tratar o REDD como um grande balcão de projetos e traz o mecanismo para o âmbito das ações de políticas públicas numa escala muito maior”.

Fonte: Carta Capital

quinta-feira, 10 de maio de 2012

REDD+: consentimento livre, prévio e informado


Manual destaca importância do conhecimento dos povos indígenas sobre programa de redução das emissões por desmatamento e degradação florestal, manejo sustentável e aumento dos estoques de carbono para que projetos deem certo

O mecanismo de redução das emissões por desmatamento e degradação florestal, manejo sustentável e aumento dos estoques de carbono (REDD+) é constantemente alvo de polêmicas por conta das controvérsias que giram acerca do seu objetivo de preservar ecossistemas e populações que dependem destes. Se por um lado alguns defendem que a iniciativa pode estimular a conservação, por outro há quem acuse o programa de explorar inadequadamente os recursos naturais e os direitos dos povos indígenas e camponeses.

Um exemplo recente de projeto de REDD+ controverso foi o caso da companhia irlandesa Celestial Green Ventures e dos índios paraenses Munduruku; por US$ 120 milhões, a empresa comprou direitos sobre os créditos de carbono dos indígenas por 30 anos, em uma operação considerada suspeita e que até a sua efetivação era pouco ou nada conhecida e aprovada pelos índios.

Para combater exemplos como este, a organização Center for People and Forests (RECOFTC) lançou na última semana um manual sobre Consentimento Livre, Prévio e Informado (FPIC).

O FPIC visa estabelecer condições para que as comunidades dependentes das florestas exerçam seu direito fundamental de negociar os termos de políticas impostas e programas que afetam diretamente os meios de subsistência ou o bem-estar dessas populações, que podem dar ou recusar seu consentimento para tais projetos.

“É uma salvaguarda social que capacita as pessoas locais a dizerem ‘sim’ ou ‘não’ para o desenvolvimento dessas iniciativas”, afirma a cartilha.

Criado para treinadores que desejam aplicar os conhecimentos de FPIC em suas comunidades, o guia é apresentado de uma forma didática e foca-se no consentimento para projetos de REDD+, embora o conceito de FPIC e mesmo o material desenvolvido possam ser usados para qualquer iniciativa para a qual o direito de autodeterminação seja relevante.

Apesar de o conceito de FPIC não ser novo, o manual classifica que a experiência utilizando este na implementação de projetos de REDD+ ainda está limitada à região Ásia-Pacífico, e há poucos materiais que explicam e treinam pessoas a respeito deste conceito e sua prática. A cartilha declara que “ainda há uma compreensão subjetiva dos termos e requerimentos do FPIC, influenciados tanto por interpretações quanto interesses culturais”.

Para que tanto o FPIC seja aplicado quanto os projetos de REDD+ tenham êxito, o texto recomenda que esses dois conceitos sejam bem conhecidos e explicados, que organizações para realizar os projetos de REDD+ e para tomar decisões sejam identificadas e selecionadas apropriadamente, que se desenvolva um processo para buscar e obter um consenso entre a população, que se integre o direito ao FPIC ao projeto, que se monitore o que foi acordado durante a implementação, que haja espaços para queixas e sugestões etc.

O guia é um complemento do relatório Consentimento Livre, Prévio e Informado no REDD+: Princípios e Abordagens para o Desenvolvimento de Políticas e Projetos, lançado pela RECOFTC em fevereiro do ano passado.

Fonte: Instituto Carbono Brasil

quarta-feira, 18 de abril de 2012

População indígena volta a crescer na zona rural em 2010, diz IBGE


Comparação entre últimos Censos mostra menos índios nas cidades.
Quantidade de indígenas no país é de 817.963, segundo instituto.


Índigenas vivem mais na zona rural, segundo o
Censo (Foto: Divulgação/Secom)


Uma comparação dos dados dos três últimos Censos divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) nesta quarta-feira (18) mostra que a população indígena voltou a ter sua maioria na zona rural em 2010. Em 2000, a maior parte dos índios se concentrava nas cidades.

Os dados apresentados não são novos. Segundo o IBGE, o estudo comparativo entre os Censos 1991, 2000 e 2010 foi divulgado nesta quarta em comemoração ao Dia do Índio, que ocorre nesta quinta (19).


Das 817.963 pessoas entrevistadas pelo instituto no último recenseamento que se denominaram indígenas no Brasil, 502.783 viviam na região rural – uma elevação de 43% se comparado com o Censo de 2000 (350.829) e de 125% ao número apresentado em 1991 (confira tabela abaixo).

Desde 1991, o Brasil ganhou 523.832 indígenas. O maior crescimento demográfico ocorreu entre 1991 e 2000, quando 439.996 índios foram incorporados aos cálculos do IBGE. Já entre 2000 e 2010, esta população cresceu de 734.127 para 817.963.

“Houve uma estabilização no crescimento demográfico, seguindo a tendência da população brasileira”, disse Wagner Silveira, supervisor de disseminação de informações do IBGE São Paulo.

As informações utilizadas pelo instituto são referentes ao questionamento “cor da pele".


Sobre a migração da zona urbana para a zona rural, Silveira diz que é possível que muitos indígenas podem estar rumando para reservas criadas pelo governo. “É uma das probabilidades, mas uma melhor análise sobre isso deve ser divulgadas em breve pelo IBGE”, explica.

De acordo com a Fundação Nacional do Índio (Funai), existem atualmente 688 terras indígenas (áreas demarcadas pela União onde existem aldeias) distribuídas pelo país, que abrigam 220 diferentes etnias.


Por região
Em 2010, a região Norte permanece abrigando a maior quantidade de indígenas (305.873), seguido do Nordeste (208.691) e Centro-Oeste (130.494). Na comparação entre os três últimos Censos, houve crescimento na quantidade de índios nestas regiões, segundo o IBGE.

Já no Sudeste e Sul houve redução a partir de 2000. Enquanto os estados que compõem o Sudeste perderam 63.229 indígenas até 2010, a soma desta população em Santa Catarina, Rio Grande do Sul e Paraná caiu em 9.802.

O documento divulgado pelo IBGE afirma que este deslocamento pode caracterizar "um retorno às terras de origem" dos indígenas. Entretanto, dados sobre a migração serão melhor analisados e divulgados pelo instituto nos próximos meses.

Cidades
Entre dez cidades brasileiras que mais abrigam indígenas, apenas quatro não estão no Amazonas.
São Gabriel da Cachoeira (que concentra a maior quantidade de índios no Brasil), São Paulo de Olivença, Tabatinga, Santa Isabel do Rio Negro, Benjamin Constant e Barcelos têm juntas 87.795 índios.

Completam a lista São Paulo (SP), Pesqueira (PE), Boa Vista (RR) e São João das Missões (MG), que, somadas, abrigam uma população de 38.798 indígenas.

Fonte: Globo Natureza

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Hutukara lança vídeo sobre “isolados” no ano em que se comemoram os 20 anos da homologação da TI Yanomami

A homologação da Terra Indígena Yanomami anunciada às vésperas da Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), em 1992, no Rio de Janeiro, permitiu a permanência de índios “isolados”, mas a presença do garimpo ilegal a menos de 15 km da aldeia onde vivem ameaça sua sobrevivência


A Hutukara Associação Yanomami divulgou em seu site imagens inéditas de grupo yanomami isolado reconhecido como os Moxi hatëtëma thëpë por seus vizinhos. O vídeo Grupo Yanomami Isolado mostra cenas filmadas em julho de 2011 pelo cinegrafista da Hutukara Morzaniel Iramari Yanomami, durante sobrevoo realizado em parceria com a Funai, por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’kuana.

Pelas imagens pode-se estimar uma população aproximada de 70 pessoas e aparentemente com boa saúde. Os Moxi hatëtëma thëpë são conhecidos de longa data dos Yanomami que vivem em suas proximidades, e com quem sempre mantiveram relações de inimizade. A Funai já havia registrado a presença desses isolados na década de 1970 tendo realizado algumas tentativas frustradas de entrar em contato com esse grupo. O vídeo divulgado pela Hutukara trata destas antigas relações de conflito, destacando que a política atual da Funai e dos Yanomami é de respeito à situação do isolamento,entendida como um ato coletivo voluntário.



Na época do sobrevoo, constatou-se que os Moxi hatëtëma thëpë correm perigo pois, segundo a Funai, existem garimpeiros atuando ilegalmente na TI Yanomami, a cerca de 15 km de sua aldeia. Esta proximidade vem restringindo as áreas de uso dos Moxi hatëtëma thëpë, empurrando-os para mais perto de outros Yanomami e aumentando cada vez mais os riscos de conflitos e/ou de uma crise epidemiológica, com consequências catastróficas.

Este ano, a Hutukara está dando destaque aos 20 anos de homologação da Terra Indígena Yanomami, ressaltando conquistas e desafios dos Yanomami e Ye´kuana. A demarcação permitiu a permanência de grupos Yanomami vivendo de forma autônoma em seu território, caso dos Moxi hatëtëma thëpë, sem contato com a sociedade brasileira e com outros indígenas. Ainda assim, apesar destes 20 anos, a Terra Indígena Yanomami segue exposta à presença de garimpeiros e fazendeiros, sendo urgente a consolidação de um plano de proteção e gestão do território, tema central das atividades desenvolvidas pela Hutukara e pelo ISA na TI.


ISA, Vicente Albernaz Coelho.

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