Paulo de Tarso Lara Pires, engenheiro florestal, advogado, é mestre em Economia e Política Florestal pela UFPR e doutor em Ciências Florestais (UFPR). Pós-doutorado em Direito Ambiental e Desastres Naturais na Universidade de Berkeley – Califórnia.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Série Plantadores de Florestas - Cap. IV - O cinturão de mangue

Sérgio de Mattos Fonseca fechou sua empresa de informática para estudar oceanografia, dar aulas de educação ambiental e organizar mutirões de plantio no mangue




Sérgio de Mattos Fonseca e o mangue restaurado em área usada irregularmente como estacionamento por uma casa noturna de Niterói (RJ).

O agito em torno dos temas ambientais e o espaço aberto na mídia para termos antes pouco usados - biodiversidade, ecossistemas, mudanças climáticas - acendeu uma luzinha verde na vida do empresário. Ele puxou o freio de mão na Laptops Informática e Tecnologia; fechou a empresa no auge e deu uma guinada de 180 graus: atravessou a ponte Rio-Niterói para morar em Itaipu e criou a Associação de Proteção a Ecossistemas Costeiros (APREC). Dois anos mais tarde, a ONG foi formalizada com sede em Paquetá, no endereço da pizzaria que virou ganha-pão do economista por algum tempo.

"Ao ver toda aquela discussão em torno da Rio 92 decidi: isso é o que eu quero fazer", resume. E como não queria embarcar nos temas ambientais de orelhada, voltou aos bancos de escola, mais precisamente aos bancos da faculdade de Oceanografia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

"Os jovens veteranos me receberam muito bem e foram logo avisando: não vamos dar trote no senhor, não". Mas Sérgio fez questão de passar pelo ritual de iniciação como todo mundo e assim conquistou vários amigos de outras gerações.

"De início, o trabalho da APREC era muito técnico. Criamos o Cultimar, que, aliás, continua até hoje como um projeto de criação de moluscos e peixes para alimentação humana, mas com base científica, estudos, avaliações", conta. A ideia de plantar mangue surgiu da necessidade de fazer frente à especulação imobiliária e à degradação no entorno da laguna de Itaipu, em Niterói.

Uma das batalhas se deu contra os donos de uma boate localizada perto da laguna, do outro lado da rua. Eles precisavam de um estacionamento para seus clientes e não acharam "nada demais" cortar a vegetação, fazer um pequeno aterro e delimitar as vagas ali mesmo, na faixa de maré antes ocupada pelo mangue. Através da APREC, Sérgio entrou com uma ação no Ministério Público e conseguiu desfazer o malfeito.

A faixa de mangue plantada em frente à boate já fechou e não dá passagem nem para carros nem para pedestres. A circulação só é livre para caranguejos, garças, mergulhões, peixinhos e camarões. Ainda tem uma ou outra casa quebrando a integridade da paisagem, mas o cinturão verde cresce e se torna mais denso a cada ano que passa.

Outra batalha foi ao longo do molhe construído com pedras bem no meio do que era para ser mangue. Sérgio e seus ajudantes em mutirão não conseguiram remover as pedras, mas plantaram mais de 22 mil mudas de mangue, de modo a permitir que a vegetação fechasse rapidamente, restaurando o ecossistema na linha de maré.

As mudas foram plantadas dos dois lados do molhe, mas coletores de caranguejos nada preocupados com a sustentabilidade arrancaram tudo do lado voltado para a baía. "Com o tempo, o próprio mangue vai se encarregando de repovoar o que foi arrancado, lançando uma muda aqui, outra ali", comemora Sérgio. "É como no resto da laguna: fizemos o plantio em alguns pontos, mas o manguezal cresceu e fechou tudo ao redor".

"As mudas vieram de outros mangues da região, foram aclimatadas na minha casa e plantadas de acordo com a tolerância à salinidade", acrescenta. O acompanhamento do crescimento das árvores e a avaliação do valor daquele mangue restaurado se transformaram na dissertação de mestrado de Sérgio de Mattos Fonseca, em Ciência Ambiental, na Universidade Federal Fluminense (UFF), com o título: "O valor de existência de um ecossistema costeiro tropical, através da disposição ao trabalho voluntário".

Depois veio um estágio de doutorado no Algarve, em Portugal, sobre a dimensão econômica dos bens e serviços ambientais. E finalmente o doutorado, concluído em 2010 na Universidade Federal de Viçosa (UFV) sobre o potencial de absorção de carbono de um ecossistema de manguezal.

Entre uma tese e outra surgiu a paixão pela educação ambiental de base comunitária. Em 1998, em parceria com o movimento Viva Rio - que é contra a violência e pelo desenvolvimento social - Sérgio montou uma escola especial nos fundos de sua casa. Ali, jovens de baixa renda combinavam a qualificação básica para o mercado de trabalho com ações comunitárias e educação para a cidadania. O Serviço Civil Voluntário, como era chamado, incluía mutirões de plantio nas comunidades. Não só de árvores de mangue, mas também bromélias e outras espécies importantes nos ecossistemas costeiros da Mata Atlântica.









"Tínhamos palestras e aulas práticas na Serra da Tiririca (atual Parque Estadual da Serra da Tiririca), na restinga de Maricá. Cheguei a ter 3 mil mudas de bromélias aqui na estufa para aclimatação antes de serem levadas para a mata, para contribuir com a restauração", lembra.


Em 2000, o rompimento de um duto da Petrobras espalhou 1,3 milhões de litros de petróleo pela Baía de Guanabara. O óleo afeta bastante as espécies de mangue e pode permanecer durante muitos anos no ecossistema atingido. Assim, como diversas outras ONGs, a Aprec logo se prontificou a cuidar de uma parte dos manguezais impactados, trabalhando em sua restauração.



Em 2002, os rumos políticos levaram ao fim do Serviço Civil Voluntário na APREC. Mas permanece o trabalho com educação ambiental, agora em cursos mais breves, mas não menos práticos. E a ONG continua de olho no desenvolvimento no mangue, na tentativa de evitar retrocessos.

O conselheiro da Colônia de Pescadores de Itaipu, Piratininga e Maricá, Otto Sobral, ressalta a importância desse mangue restaurado: "Eu sou morador da praia de Itaipu há mais de 25 anos, vivo da pesca e sei que até garoupa já se matou aqui dentro da laguna. Teve um tempo que o pessoal esqueceu a pesca, mas depois que foi feito o replantio do manguezal houve um enriquecimento do ecossistema lagunar e a pesca se intensificou novamente, principalmente a pesca de camarão".

Sobral faz um alerta, porém, em relação aos sedimentos retirados do porto do Rio de Janeiro. Em lugar de ser jogado em alto-mar, onde produziria menos impactos, todo o material retirado nas dragagens hoje é despejado entre as ilhas próximas e ameaça não só a laguna de Itaipu, como toda a pesca artesanal e as atividades de mergulho da região.

"Se você mergulhar vai encontrar a água turva, com uma camada de sedimentos em suspensão", lamenta o pescador. "De dois anos para cá, com a intensificação das obras do PAC (Programa de Aceleração de Crescimento) evoluiu de tal forma essa quantidade de material dragado dentro da baía e despejado aqui por perto, que vem causando grande impacto, sobretudo na pesca artesanal. O pescador coloca a rede na água num dia e passa o resto da semana limpando o lodo e o lixo. Hoje se pesca mais lixo do que peixe por aqui, peixe se tornou coisa rara".

Enquanto eu finalizo as fotos do alto de uma duna de areia, Sérgio e Otto esboçam estratégias para afastar a ameaça e garantir vida longa ao cinturão de mangue. Falam em dragar o canal de conexão da laguna com o mar e discutem meios de chamar a atenção para os impactos dos sedimentos na água. Sabem o que os espera. Ainda assim não pretendem fugir à briga.

Basta um olhar para a laguna cercada de verde, lá embaixo, para saber que estão certos em sua teimosia.

Fonte: National Geografic BR






sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Série Plantadores de Florestas - Cap. III - O sequestrador de carbono

No comando da consultoria ambiental Companhia Brasileira de Florestas Tropicais (CBFT), Rodolpho Schmidt promove ações para sequestro de carbono


Rodolpho Schmidt em um de seus reflorestamentos, na região de Campinas.

Aos 16 anos, Rodolpho Schmidt deu uma entrevista para a televisão, na qual declarava sua intenção de seguir os passos do avô - Wolfgang Carl Adolph Schmidt - como plantador de florestas. Alemão de Berlim, seu Schmidt (como o avô era mais conhecido), morava desde os anos 1940, na fazenda Santa Mônica, na região de Joaquim Egídio, Campinas, interior de São Paulo. Há muito havia deixado de "colecionar madeiras para colecionar árvores", como ele dizia. E por sua defesa incondicional do plantio de matas acabara de receber o Prêmio Global 500, junto com sua esposa, Anésia do Amaral Schmidt. Era 1992 e o Brasil sediava a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, a Rio92, durante a qual o casal recebeu a homenagem internacional.

Quando veio para o Brasil, ainda jovem, Wolfgang Schmidt era madeireiro. Encantou-se com a variedade das madeiras nativas e cortou muitas árvores para ganhar a vida. Mas logo percebeu a fragilidade da exploração sem reposição e passou a fazer experimentos de plantio em sua fazenda.

Constituiu um arboreto com mais de 100 espécies madeireiras e, na base de tentativas e observação direta, aprendeu a enxergar o valor da biodiversidade nos reflorestamentos, fossem eles para fins comerciais ou de conservação. Como tudo isso aconteceu numa época em que o movimento ambientalista nem havia nascido, não faltaram más línguas para chamar seu Schmidt de "alemão maluco".

Em sua mesa de madeira reciclada, Rodolpho Schmidt assiste à entrevista que deu aos 16 anos para a TV quando seu avô, Wolfgang Schmidt (no computador à esquerda) ganhou o Prêmio Global 500 da ONU.
Desde pequeno, Rodolpho acompanhava o avô pelo arboreto, ouvindo suas lições apaixonadas junto com a prima Helena. Ele acabou virando engenheiro florestal e ela fez Biologia. Os outros oito netos seguiram caminhos diferentes. Assim, em 2005, quando Wolfgang Schmidt faleceu, aos 100 anos, era natural que Rodolpho herdasse a porção da fazenda onde fica o arboreto, assumindo também a herança imaterial de plantador de florestas.

As árvores do avô hoje são matrizes de onde Rodolpho tira sementes para os seus reflorestamentos, de reconstituição de Áreas de Preservação Permanente (APPs), Reserva Legal (RL) e, principalmente, para sequestro de carbono (ou seja, plantar árvores para compensar emissões de gases de carbono resultantes da queima de combustíveis e do consumo de energia). As lições aprendidas na infância transparecem na forma de organizar tais plantios e, sobretudo, na sobriedade germânica da prestação de contas de sua empresa, a Companhia Brasileira de Florestas Tropicais ou CBFT.

"Em lugar de primeiro captar recursos de empresas que querem fazer a compensação de carbono e depois procurar um local para plantar, fazemos o inverso. Primeiro procuramos um local, uma fazenda onde é preciso recompor as APPs ou RL ou áreas onde haja a intenção de fazer reflorestamento para exploração comercial. Avaliamos o potencial do local em termos de sequestro de carbono, dividimos em cotas e só então passamos a vender estas cotas", resume Rodolpho, hoje com 36 anos.

Cada árvore plantada recebe um código e é periodicamente fotografada. A empresa ou o organizador de evento que faz a compensação de carbono - ou qualquer outra pessoa interessada - pode acompanhar o crescimento de cada muda via internet. Isso evita duplicação - vender o mesmo plantio para empresas diferentes - e também facilita o cálculo do carbono efetivamente fixado (quer dizer, transformado na madeira do tronco e dos galhos das árvores).


Madeira resultante de podas urbanas ao lado das árvores plantadas por Wolfgang Schmidt, avô de Rodolpho.

Rodolpho agora transforma a madeira resultante de podas urbanas em móveis, contribuindo para a fixação de carbono.

O conceito de reflorestamento usado por Rodolpho também revela a influência do avô. "O reflorestamento é feito com o duplo objetivo de recuperação natural e obtenção de madeira para exploração comercial", explica. "Plantamos uma linha de eucaliptos e uma linha de árvores nativas, de modo intercalado. Os eucaliptos serão aproveitados para lenha ou madeira nos anos iniciais, rendendo até 3 cortes. Eles permitem ao dono da propriedade obter alguma renda enquanto a mata cresce, e fazem sombra para as mudas de nativas, que não crescem a pleno sol. A sombra dos eucaliptos ainda força as árvores nativas a crescerem retas, de forma apropriada para o futuro uso comercial da madeira". Vale notar que o carbono absorvido durante o crescimento de uma árvore se mantém fixado se sua madeira é aproveitada para fazer móveis. O carbono só volta a ser liberado se a árvore apodrecer ou se for queimada.

Outra grande diferença nos plantios é o tratamento dado às impopulares "ervas daninhas". Em lugar de passar a máquina por cima, lutando para eliminá-las, Rodolpho as tem como aliadas. "O alecrim-do-campo e diversas outras plantas consideradas daninhas em lavouras são as pioneiras da reconstituição da mata. Elas é que vão ajudar a formar o solo florestal, possibilitando a sobrevivência das árvores mais nobres e, depois, quando a área já estiver sombreada pelas novas árvores, elas desaparecem naturalmente", diz o engenheiro florestal. "A natureza tende à floresta: basta controlar o pasto ou deixar de plantar outra coisa e a mata rebrota, as aves semeiam, os animais replantam. Basta deixar e não atrapalhar. O mais importante é compreender a natureza e ter paciência".

À parte do plantio de florestas, Rodolpho também faz laudos para prefeituras e para órgãos ambientais, orientando o corte de árvores urbanas em situação de risco: apodrecidas, com cupins, ameaçando cair sobre edificações, danificadas após temporais ou enchentes etc. "Sempre fiquei incomodado com o fato de muitas dessas árvores serem transformadas em lenha ou serem simplesmente queimadas. Após muita negociação consegui trazer parte dessas árvores para a fazenda, para reciclar, construindo móveis". Mesmo os galhos de árvores resultantes da poda urbana, feita para proteger a fiação elétrica, agora se transformam em cadeiras, mesas e objetos de decoração, com apoio da esposa de Rodolpho, a arquiteta Maira Del Nero.

"O uso da madeira urbana demonstra respeito à história das árvores, pois seu produto permanece vivo na forma de peças certificadas. Além disso, ao usar produtos madeireiros certificados, contribuímos para evitar emissões de carbono para a atmosfera", acrescenta, Rodolpho. Alguns desses móveis do Projeto Madeira Urbana - fruto da parceria com o designer Paulo Werneck - venceram na categoria Produto do Prêmio Planeta Casa, em 2010. O prêmio é uma iniciativa da revista Casa Cláudia, realizado em parceria com o movimento Planeta Sustentável, ambos da Editora Abril.

Rodolpho Schmidt também tem um quê de poeta, músico e blogueiro. Compartilha sua produção artística com o público em http://rodolphoschmidt.wordpress.com, misturando conhecimento, capacidade de observação e profissionalismo com a herança de paixão pelas árvores do avô Wolfgang Schmidt. Vale a pena passar por lá para conhecer um pouco melhor esse sequestrador de carbono.
Fonte: National Geografic BR

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012

Série Plantadores de Florestas - Cap. II - O semeador do Pontal do Paranapanema




Jefferson Lima dedica-se ao projeto Café com Floresta, da ONG Ipê, no Pontal do Paranapanema, onde estimula a plantantação de espécies nativas nos cafezais

Na caminhonete há uma coleção de sacos e sacolinhas, bem amarrados para não deixar escapar o precioso conteúdo. O geógrafo e técnico em agropecuária Jefferson Lima nunca volta com a mesma carga da ida. Também nunca chega ou sai de mãos abanando. Quando faz suas visitas aos assentados do Pontal do Paranapanema, no extremo oeste do Estado de São Paulo, ele é um autêntico dispersor de sementes e de mudas, um extensionista rural como poucos, integrante da equipe do Instituto de Pesquisas Ecológicas, Ipê.

Não por acaso, vários dos assentados com os quais ele trabalha o chamam de professor. Enquanto distribui suas sementes e promove trocas entre agricultores, ele vai semeando ideias, dando uma sugestão aqui; ressaltando a importância da diversidade de culturas ali; chamando a atenção para os cuidados que mantêm viva a fertilidade do solo; as formas de controlar pragas e doenças de maneira natural, sem químicos, e outros muitos princípios da agroecologia.

A base é de troca, sempre: Jefferson pede umas bananeiras boas de produção ao seu Eziel para levar para dona Amélia; tira uns frutos de jaracatiá do quintal da dona Amélia para reproduzir no viveiro; leva um punhado de sementes de milho de pipoca da dona Teresa para José Santiago. Assim vai estreitando os laços entre vizinhos e tecendo a malha da agrofloresta familiar.

No viveiro, tubetes são usados para cultivar as mudas e reaproveitados várias vezes, ao invés de virarem lixo no local de plantio.

Jefferson Lima, da ONG Ipê, enrola o "rocambole" de plantas, que pode ter até 50 mudas, todas prontas para o plantio.

Uma parte das sementes e mudas é de culturas anuais ou perenes, alimentos para os assentados garantirem mesa farta em casa e algum excedente para vender. A contrapartida que ele pede é o plantio de árvores nativas, para formar bosques e recompor a vegetação de uma região com sérios problemas fundiários, agravados a partir dos anos 1940. Nas disputas entre fazendeiros, grileiros, sem-terras e governo, ali no Pontal, o maior perdedor sempre foi o meio ambiente: queimadas, incêndios criminosos e desmatamentos costumavam ser vistos como maneiras de garantir a posse da terra. A ponto de só restarem florestas primárias dentro dos limites estritos do Parque Estadual Morro do Diabo, além de alguns poucos fragmentos florestais esparsos, em fazendas de gado.

Essa dinâmica perdurou até o início dos anos 1990. Então foi criada a organização não-governamental Ipê, com o objetivo de trabalhar a conservação da biodiversidade e a ecologia da paisagem por meio do fortalecimento social e econômico das comunidades locais. Entre as diversas estratégias para alcançar essas metas, a equipe do Ipê conseguiu a proeza de convencer assentados a dedicar pelo menos um hectare de cada lote ao plantio de árvores nativas. Parece pouco para a necessidade da região, mas é bastante para quem tem um lote de apenas 15 a 25 hectares.

O trabalho começou com Laury Cullen Júnior, com os chamados bosques-trampolim, o primeiro passo para implantar corredores de biodiversidade, que promovem a conexão do parque com os fragmentos florestais em terras privadas. Os bosques facilitam a passagem de animais e conservam a saúde genética da fauna silvestre. Jefferson veio em seguida, em 1996, e implantou o sistema Café com Floresta, ou seja, café sombreado por árvores nativas nos lotes de assentamentos. O agricultor ganha com o café, de excelente qualidade; a fauna ganha alimento e abrigo e a paisagem fica mais verde, protegendo a água e o solo.


Aos poucos, a paisagem do Morro do Diabo se modifica, com muito mais verde e mais vida.


Nascido em Porecatu, no Paraná, em 1971, Jefferson teve uma infância de cidade pequena, pontuada por bons contadores de histórias, aventuras no mato e pescarias no rio. Com a passagem pelo colégio agrícola, o trabalho como técnico agrícola da Emater-PR e o envolvimento com o movimento dos sem-terra acabou definitivamente atado à vida rural.

Mesmo agora, em vias de terminar seu doutorado, Jefferson nem pensa em cidade grande. O que ele gosta mesmo é de rodar pelas estradas vicinais na caminhonete e usar a cabeça para encontrar meios e mecanismos de plantar mais árvores, buscar resultados práticos e sustentáveis, tanto nos aspectos ambientais, como econômicos, culturais e sociais e sobretudo familiares. Uma de suas ferramentas, por exemplo, é o "rocambole de mudas", adotado no transporte das futuras árvores para os assentamentos. Em lugar de levar as mudas em bandejas, dentro dos tubetes onde elas são plantadas - o que exigiria um caminhão - Jefferson retira as mudas dos recipientes, alinha até 50 delas sobre um saco plástico e vai enrolando como um rocambole. Com isso, consegue carregar centenas em uma só viagem!

O "rocambole" mantém a umidade das mudas; possibilita a mistura de espécies diferentes (recomendada para o plantio) e facilita o reaproveitamento dos tubetes, evitando que se transformem em lixo no campo. "A ideia não é minha, só aproveitei", faz questão de frisar. Mas todos por ali chamam aquilo de "rocambole do Jefferson". E de rolinho em rolinho, já se foram pelo menos uns dois milhões de mudas de árvores nativas para os assentados!

Jefferson trabalha diretamente com 90 famílias, em diferentes assentamentos, das 140 famílias assistidas pelo Ipê. Além de espalhar os princípios da agroecologia, não descuida do maior problema das propriedades familiares: o êxodo dos jovens para as cidades. Sempre que pode, ele envolve os jovens filhos de assentados no trabalho, seja incentivando a plantar seu próprio cantinho de horta, milho crioulo ou café com floresta, seja acolhendo os mais interessados como monitores, seja levando materiais de estudo, livros, fotos, vídeos e o que mais passar por suas mãos. "Fico orgulhoso quando vejo alguém crescendo, fazendo esse trabalho, um jovem que se dedica ao viveiro, uma jovem que pede aos pais um pedaço de terra para plantar. Quando isso vira cultura popular não tem mais importância como começou, quem originou: a ideia está semeada", diz.

Ele volta a falar com entusiasmo de sua filosofia de trabalho: "A palavra mais importante na agroecologia é depende: depende do solo, depende do clima, depende do agricultor. E a base é a troca de sementes. Sempre que temos uma reunião, convido todos a trazerem suas sementes, principalmente as mulheres. Na hora do café, fazemos as trocas", conta. "A troca garante a diversidade genética e essa diversidade é fundamental para a transição da agricultura convencional para a agroecológica. Os agricultores têm um papel importante no transporte dos genes, o que torna a produção mais sustentável e favorece a biodiversidade."

Na verdade, é fácil notar que Jefferson não cuida apenas do plantio de árvores e das culturas. Em suas visitas aos assentados ele também dá receitas de adubação, é médico do solo, conselheiro familiar, advogado de causas diversas, mecânico de veículos e implementos agrícolas, técnico de TV e o que mais precisar de uma mãozinha. Tudo com a mesma dedicação e com uma vontade de aprender tão grande quanto a de ensinar. O resultado de seu trabalho transparece na maneira como é recebido pelos assentados e aparece na paisagem do Pontal.
Fonte: National Geografic Brasil

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