Paulo de Tarso Lara Pires, engenheiro florestal, advogado, é mestre em Economia e Política Florestal pela UFPR e doutor em Ciências Florestais (UFPR). Pós-doutorado em Direito Ambiental e Desastres Naturais na Universidade de Berkeley – Califórnia.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Hutukara lança vídeo sobre “isolados” no ano em que se comemoram os 20 anos da homologação da TI Yanomami

A homologação da Terra Indígena Yanomami anunciada às vésperas da Conferência Mundial das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio-92), em 1992, no Rio de Janeiro, permitiu a permanência de índios “isolados”, mas a presença do garimpo ilegal a menos de 15 km da aldeia onde vivem ameaça sua sobrevivência


A Hutukara Associação Yanomami divulgou em seu site imagens inéditas de grupo yanomami isolado reconhecido como os Moxi hatëtëma thëpë por seus vizinhos. O vídeo Grupo Yanomami Isolado mostra cenas filmadas em julho de 2011 pelo cinegrafista da Hutukara Morzaniel Iramari Yanomami, durante sobrevoo realizado em parceria com a Funai, por meio da Frente de Proteção Etnoambiental Yanomami e Ye’kuana.

Pelas imagens pode-se estimar uma população aproximada de 70 pessoas e aparentemente com boa saúde. Os Moxi hatëtëma thëpë são conhecidos de longa data dos Yanomami que vivem em suas proximidades, e com quem sempre mantiveram relações de inimizade. A Funai já havia registrado a presença desses isolados na década de 1970 tendo realizado algumas tentativas frustradas de entrar em contato com esse grupo. O vídeo divulgado pela Hutukara trata destas antigas relações de conflito, destacando que a política atual da Funai e dos Yanomami é de respeito à situação do isolamento,entendida como um ato coletivo voluntário.



Na época do sobrevoo, constatou-se que os Moxi hatëtëma thëpë correm perigo pois, segundo a Funai, existem garimpeiros atuando ilegalmente na TI Yanomami, a cerca de 15 km de sua aldeia. Esta proximidade vem restringindo as áreas de uso dos Moxi hatëtëma thëpë, empurrando-os para mais perto de outros Yanomami e aumentando cada vez mais os riscos de conflitos e/ou de uma crise epidemiológica, com consequências catastróficas.

Este ano, a Hutukara está dando destaque aos 20 anos de homologação da Terra Indígena Yanomami, ressaltando conquistas e desafios dos Yanomami e Ye´kuana. A demarcação permitiu a permanência de grupos Yanomami vivendo de forma autônoma em seu território, caso dos Moxi hatëtëma thëpë, sem contato com a sociedade brasileira e com outros indígenas. Ainda assim, apesar destes 20 anos, a Terra Indígena Yanomami segue exposta à presença de garimpeiros e fazendeiros, sendo urgente a consolidação de um plano de proteção e gestão do território, tema central das atividades desenvolvidas pela Hutukara e pelo ISA na TI.


ISA, Vicente Albernaz Coelho.

quinta-feira, 5 de abril de 2012

Áreas de alerta de desmatamento aumentaram entre agosto e março


Área é maior que apurado entre agosto de 2010 e março de 2011, quando somou 1,37 km²


As áreas de alerta para desmatamento cresceram no período entre agosto de 2011 e março deste ano. De acordo com levantamento do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), divulgados nesta quinta-feira (05/04/12) pelo Ministério do Meio Ambiente, até março deste ano essas áreas somam 1,39 km², superior aos 1,371 km² apurados no mesmo período de ano anterior.


Segundo a ministra, esse número, apesar de ter crescido, aponta tendência de queda nas áreas desmatadas. Isso porque neste ano a mensuração das áreas de alerta foi mais abrangente, com menor incidência de nuvens nas áreas analisadas. Dessa forma, no Mato Grosso, os alertas aumentaram fortemente, em 98%, passando em fevereiro a 307 km² de áreas com possibilidade de desmatamento, ao passo que no mesmo mês do ano passado apenas um quilômetro havia sido detectado.

- Não temos aumento do desmatamento absoluto, temos um pico no Mato Grosso, em fevereiro. Tem tendência de redução, em termos reais - afirmou a ministra do Meio Ambiente, Izabella Teixeira.

O Deter (Detecção de Desmatamento em Tempo Real), sistema do Inpe utilizado para o levantamento, mensura as áreas com possível risco de desmatamento, e não apenas aquelas que já foram desmatadas. Dessa forma, o órgão destaca que os dados divulgados se tratam de áreas de alerta para desmatamentos, isso porque o satélite do DETER consegue identificar estágios anteriores ao de desmatamento, como o corte parcial de árvores mais baixas, a queimada, o plantio de mata rasteira para posterior queimada e, por fim, o corte raso de árvores, considerado o desmatamento.



‘Tem gente que está desmatando acreditando que pode ser anistiado’
Sobre o aumento dos desmatamentos no Mato Grosso, Izabella afirmou que pesquisas dos agentes nos locais podem indicar que há uma mudança no período desmatado, que antes acontecia mais fortemente nos meses de seca. Além disso, pode haver uma relação com o Código Florestal. Segundo a ministra, há relatos de que os desmatadores acreditavam em maior anistia com a lei ou ainda que o Ibama não teria poder de fiscalização e de aplicar multas:

- Algumas colocações foram feitas por pessoas na área, não sabemos se é verdade, mas sinalizam que ainda tem gente que está desmatando acreditando que pode ser anistiado. Um debate ligado ao Código Florestal e à lei estadual.

Além disso, Izabella aponta que houve um aumento de 363% dos alertas no estado de Roraima, entre agosto de 2011 e mês passado:

- Há varias indicações, uma delas é a de que você esta tendo migração da atividade madeireira do Pará para Roraima. Há associação também que pode ser de migração e atividades econômicas que levem a desmatamentos ilegais. Ainda não sabemos quando disso é ilegal. é obvio que está acontecendo algum fenômeno, e estamos observando – disse a ministra.


quarta-feira, 4 de abril de 2012

O presidente que luta contra um desastre ambiental


Mohamed Nasheed, das Ilhas Maldivas, é personagem de filme que mostra como o aquecimento global pode destruir um país


Mohamed Nasheed, presidente das Ilhas Maldivas
The New York Times
Para as pessoas que vivem em zonas de clima temperado, como regiões interioranas e zonas industriais do ocidente, o aquecimento global gera uma ansiedade que pode beirar o pânico, mas de uma maneira quase impossível de se notar. O inverno sutil que a costa leste enfrentou este ano pode ter parecido um sinal ameaçador, embora tenha providenciado um clima agradável, e na maior parte do tempo outros problemas sociais, econômicos e políticos parecem ter tido uma importância muito maior do que a sobrevivência humana.

Existe também um grupo de pessoas que formou uma subcultura propensa a gerar controvérsia a respeito da mudança climática e da preservação do meio ambiente, dizendo que o aquecimento global não passa de farsa. Uma conspiração liberal! Como se tudo não passasse de um esquema idealizado por cientistas gananciosos e organizações internacionais que procuram fazer com que nós tenhamos culpa por nossos carros e sacolinhas de supermercado!

Em outras regiões do mundo, no entanto, a questão é mais alarmante. "The Island President" (O Presidente da Ilha, em tradução literal), um documentário de Jon Shenk, visita as Ilhas Maldivas, um arquipélago de cerca de 1.200 ilhas localizadas no Oceano Índico, das quais cerca de 200 são habitadas. O país é descrito como "o céu na Terra", com suas praias de areia branca e águas cristalinas que se tornaram um refúgio para turistas ricos. Mas embora o filme possua imagens aéreas e submarinas espetaculares da beleza das Ilhas Maldivas, ele foca a maior parte de sua atenção em uma realidade menos agradável.

Durante 30 anos o país foi governado por Maumoon Abdul Gayoom, um ditador que adotava uma postura autoritária de prender, torturar e aterrorizar todos os seus adversários. Entre eles estava Mohamed Nasheed, que depois de anos como ativista pró-democracia e prisioneiro político foi eleito presidente, aos 41 anos de idade, em 2008.

Assim que assumiu o cargo, Nasheed enfrentou uma crise ambiental catastrófica. O aumento constante do nível dos oceanos causado pelo derretimento do gelo polar e o aumento das temperaturas globais já haviam gerado graves casos de erosão em algumas ilhas do arquipélago e a eventual inundação desta pequena e vulnerável nação está começando a parecer inevitável ao invés de apenas assustadoramente plausível.

Shenk e sua equipe tiveram acesso livre ao gabinete de Nasheed durante seu primeiro ano no poder e o "Presidente da Ilha" parece registrar a energia, por vezes quase caótica, de um líder jovem e ambicioso diante de enormes desafios. Informativo, o vídeo compartilha diversas informações de um ponto de vista privilegiado, como por exemplo ao revelarem entrevistas feitas com Nasheed, imagens de seus conselheiros e de sua esposa intercaladas com cenas da agitada vida de um político pós-moderno. Nasheed se reúne com membros de seu gabinete e assessores ambientais britânicos, participa da filmagem de anúncios de serviço público (incluindo um em que estar em uma reunião embaixo d'água, filmado utilizando um equipamento de mergulho), faz pausas para fumar um cigarro e viaja para uma série de conferências sobre a mudança climática.

A última delas, a Cúpula contra a Mudança Climática de Copenhague, dá ao filme o seu clímax, à medida que Nasheed se torna uma peça fundamental em uma série de complexas negociações que ele esperava poderem levar a um acordo internacional sólido para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. Embora o filme apresente um relato razoavelmente claro sobre as questões técnicas envolvidas - não há muita discussão sobre quais são os graus aceitáveis de aquecimento, centímetros de aumento do nível do oceano e o quanto de dióxido de carbono é despejado no ar - ele também foca em alguns dos rituais de poder e diplomacia que ocorrem no século 21.

Nasheed, um homem sério, bonito, bem vestido e bem-educado parece se sentir em casa neste mundo da alta política mundial, embora seja muitas vezes criticado por seus aspectos pouco funcionais. Ele é um debatedor ágil que tem uma forte presença de câmera e que parece combinar seu jeito infantil de ser com uma certa auto-confiança tecnocrática.

Em Copenhague - e alguns meses antes, em uma sessão da ONU em Nova York - ele tentoi usar sua autoridade moral como líder de uma pequena nação em perigo para trazer alguns dos políticos mais céticos e cautelosos do mundo em desenvolvimento para o seu lado. Mas as complexidades geopolíticas são assustadoras e os obstáculos estruturais para poder realizar qualquer tipo de mudança parecem impor cada vez mais dificuldades.

Nasheed também enfrenta dificuldades em casa, embora além da elevação dos oceanos, nenhuma pareça tão importantes para ele quanto o meio ambiente. Até que após a narrativa somos informados que ele foi forçado a deixar o poder no mês passado, mais de dois anos após a conclusão das filmagens. Outra nota relata que, naquela época, os níveis de dióxido de carbono na atmosfera continuaram a aumentar.

O otimismo é da natureza dos líderes políticos, especialmente dos democráticos, e insistir que soluções podem ser encontradas até mesmo para os problemas mais difíceis faz parte disso. Documentários que lidam com assuntos politicamente engajados, principalmente aqueles feitos por cineastas americanos, também possuem essa tendência, oferecendo uma certa garantia implícita, mesmo que acabem falando a respeito das más condições do mundo em que vivemos. A conscientização virá à tona. Os progressos necessários serão feitos. Duvidar disso pode soar como cinicismo.

"The Island President" é positivo o suficiente para impedir que isso aconteça. É impossível torcer contra Nasheed ou a acreditar que ele vai fracassar enquanto assistimos o documentário. Mas a esperança que este filme gera faz com que a experiência de sair do cinema e contemplar um iminente desastre que os líderes mundiais parecem ser incapazes de evitar um pouco perturbadora.

Assista ao trailer do filme: 

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